terça-feira, 3 de novembro de 2009

Visão


Ainda criança, desenvolvera certa mania. Sempre que passava por algum mendigo, ou pedinte, ou morador de rua, fechava os olhos até que perdesse o indivíduo do seu campo de visão. Começou soltando a mão do pai ou da mãe quando nas idas ao mercado. Ao ver o pedinte na escadaria de entrada do estabelecimento, soltava a mão do acompanhante o mais depressa possível e com a mesma rapidez tapava os olhos. Tinha que ser guiado pelo acompanhante com uma mão nas costas para que pudesse caminhar sem tropeços.

O que parecia estranho, de início, acabou se tornando costume. A família nem se preocupava mais, aliás, foram além, achavam aquilo tudo engraçado. Era a história preferida dos almoços de domingo, contada para todos ouvirem, ao que o garoto ficava ali, comendo, calado, sem expressar qualquer reação aos comentários dos adultos sobre seu estranho e hilário hábito.

O tempo foi passando e mania continuava a mesma. Na adolescência, durante as voltas da escola, perto do meio-dia, de vez em quando se deparava com algum hominídeo mendigando comida na porta de restaurantes e lancherias. Disfarçadamente, para que os colegas não reparassem, semicerrava os olhos de forma que conseguisse enxergar o caminho, mas visse no máximo seres disformes, sem rostos, à sua frente.

Quando já na faculdade, tomava o ônibus que seguia por um caminho onde havia várias daquelas pontes sobre o arroio que cortava a cidade. Quando não estava atento a algum livro ou polígrafo obrigatório para as cadeiras que fazia e perdia o olhar pela janela do ônibus, da mesma maneira de sempre, dava um jeito de não ver as pessoas que moravam debaixo daquelas pontezinhas imundas. Ou fechava os olhos como se tivesse sido cegado pelo sol, ou desviava o olhar para algum outro ponto do ônibus, como se algo lhe tivesse chamado a atenção. As maneiras e desculpas eram diversas. Poderia passar dias criando novas fugas.

Quando já formado e com emprego estabelecido, conseguiu comprar um carro. Sabia que suas fugas agora se tornariam mais arriscadas. Começou a usar óculos escuros o tempo todo. Como isso não ajudava muito, passou a se concentrar nos retrovisores, caso visse qualquer espécie de mendigo à sua frente. Por pouco não bateu nos carros da frente, algumas vezes.

Foi levando dessa maneira e sendo razoavelmente bem sucedido por um tempo. Certa vez, porém, ao dirigir por uma das avenidas principais da cidade, a cena se construiu de forma que a catástrofe era iminente: não conseguiria escapar dos malabaristas do sinal. Dirigia tranquilamente, quando avistou, uns 50 metros à frente, dois garotos sem camisa se preparando para entrar em ação e fazer aquela funesta apresentação artística. Os garotos sabiam melhor que ele o tempo do semáforo, portanto, o sinal vermelho estava próximo. Sabendo que teria que parar no sinal e ver àquilo tudo, resolveu acelerar o máximo que pode. O carro foi aumentando de velocidade; o meio-fio da calçada corria rápido ao seu lado; o sinal pulou para o amarelo e, em menos de dois segundos, para o vermelho. Os garotos deram os dois primeiros passos em direção ao meio da rua quando o motorista passou por eles, próximo dos 100 quilômetros por hora. Os garotos se atiraram para trás, fugindo do motorista que, contaram depois à polícia, estava com a cabeça encolhida, rente ao volante, e os olhos completamente fechados. Outras testemunhas também acompanharam o carro passando em alta velocidade e entrando debaixo do ônibus que cruzava a esquina na rua da frente.

O corpo do motorista foi retirado em estado lastimável. Ninguém poderia ter certeza, mas preferiram afirmar que, na hora do impacto, seus olhos estavam completamente fechados.

domingo, 11 de outubro de 2009

Teste de amizade


Amigos desde a infância, trabalhavam na mesma empresa no limiar da adolescência e da idade adulta. Tinham uma boa relação, envolta em piadas e histórias para contar. Nada podia abalar tal relação.

Certo dia, no intervalo para o cafezinho, um amigo chegou para o outro e disse:
– Cara, preciso falar contigo.
– Fala, velho.
– Na real, tenho um segredo, uma coisa que tá me incomodando.
– Pô, qualé que é, velho? Tu virou gay? – a risada saiu automática. O outro, não demonstrando cumplicidade no senso de humor, respondeu.
– Não, cara, pior.
– Então tu é brocha?
– Não. Pior.
– Porra, então tu é gay e brocha?
– Não, cara. É pior, muito pior.
– Pô, qualé que é então? – o amigo já estava ficando preocupado.
– Cara – pausa – eu tenho tara por gordas.

Depois daquele dia, nunca mais trocaram uma palavra sequer.

sábado, 5 de setembro de 2009

O telefonema


Andava de um lado ao outro da sala. De cabeça baixa e roendo a unha do dedão da mão direita, ia de uma parede à outra. As tábuas do assoalho já pareciam ter os sapatos do homem desenhados de forma rítmica. O homem caminhava como se pudesse repassar ao ar toda sua apreensão. De vez em quando mudava o trajeto da metade do caminho e corria ao telefone em cima de uma mesinha num dos cantos da sala quadrada. Tirava-o do gancho e levava ao ouvido: sim, estava funcionando. O movimento se repetia quase que a cada minuto como se, em questão de segundos, o aparelho pudesse ficar mudo. “E se ligaram justamente quando tirei do gancho?”, pensou. “Não, não haveria tanta coincidência assim”. E continuava andando.

No outro canto da sala, sentado no chão, outro homem observava-o. Este, por sua vez, cessava o ir e vir algumas vezes e ficava parado, olhando o homem no chão como se quisesse dizer algo e não conseguisse. De onde estava, o homem do canto até conseguia ver a boca do outro se abrindo, ao mesmo tempo em que ele ajeitava o corpo como se finalmente fosse vomitar todas as palavras presas à sua garganta. Aí o homem cerrava novamente a boca, recuava e voltava a caminhar. Todas as palavras perdiam-se antes de chegar à língua

Pela décima vez em quinze minutos, testava se o telefone estava funcionando ou não. Pensou em ligar, mas não, tinham lhe deixado bem claro que não deveria ligar, só esperar. E que castigo era aquele. Nada era pior que a angústia da espera. Chegava a desejar que o telefone tocasse de qualquer forma, fosse para o bem, fosse para o mal, não interessava, apenas queria que tocasse. Já não agüentava mais. “Esperar, esperar, esperar. Odeio esperar”, disse em voz alta e logo olhou para o homem do canto da sala como se afirmar: não, não sou louco.

Iniciou novamente seu ir e vir até que mudou a direção, buscou uma cadeira, levou-a para o lado do telefone e sentou. Ficou ali, olhando para o aparelho como se pudesse fazê-lo tocar só com seu pensamento, ou melhor, só com o seu desejo. O homem no canto da sala continuava quieto. Assistia a tudo sem dizer nada, sem mover um músculo. Parecia já conformado com a espera. Não havia mais nada para fazer. Depois que o outro homem sentou-se, ele parou de observá-lo e repousou os olhos na parede que ficava em frente, no exato ponto onde teto e parede se encontravam e ficou acompanhando os movimentos da aranha que preparava seu almoço.

Já havia reparado naquela teia alguns dias antes, era seu passatempo preferido. A aranha já havia sentido o movimento da mosca que ficara presa na sua teia e foi calmamente ao encontro dela. “Como são diferentes esses dois”, pensou, comparando a aranha e o homem que só há pouco tinha se acomodado na cadeira, “uma espera tranqüilamente até que algum inseto fique preso e possa ser seu alimento, enquanto o outro não consegue ficar parado meia-hora esperando um telefonema. Qual dos dois será o mais inteligente?”. A iluminação precária não o deixava observar exatamente o que acontecia no canto a sua frente, mas sabia que naquele momento o aracnídeo devia estar injetando seu veneno na pequena mosca. Alguns segundos depois já a enrolava com sua teia, movendo agilmente duas de suas patas, formando um casulo. Não demoraria muito e começaria a sugar todo o fluido daquele pobre inseto. No fundo, o homem que observava a cena se sentia exatamente como aquela mosca.

Ainda ao lado do telefone o outro continuava esperando. Virou a cabeça em direção ao homem do canto e acompanhou seus olhos até a teia de aranha que este observava. Não deu bola. Voltou a fitar novamente o telefone e disse em voz alta, sem olhar para o outro no canto:

- Sabe – fez uma pausa – estou esperando um telefonema muito importante.

Não obteve resposta.

- Na verdade, nós estamos esperando um telefonema muito importante. Tu deveria tá ansioso também.

O outro deu de ombros.

Ficaram mais de um minuto calados, até que continuou.

- Eu, por mim, não tava aqui. Mas sabe, tem coisas que a gente não pode escolher, não tem essa liberdade. Tem coisas que a gente simplesmente tem que fazer. Tu me entende!?

Terminou a frase e olhou para o homem no canto e encontrou-o virado para ele; poderia dizer que o metralhava com os olhos.

- É verdade, sim. Pode até parecer que não, mas é a mais pura verdade. Ou tu acha que eu não preferia tá em casa brincando com meu filho agora!? Ah, não te falei, né!? Tenho um guri de nove anos. Quer ser jogador de futebol, vê se pode! – sorriu.

O outro voltou a olhar a aranha.

- Eu já disse pra ele que é difícil, que não se chega a profissional de uma hora pra outra. Mas ele só tem nove anos, pombas, claro que não entende que é difícil. E pra quê que eu vou cortar os sonhos do guri tão cedo!? Não, deixa ele sonhar mais um pouco. Nessa idade a gente pode sonhar, pode achar que a vida é bonita mesmo, como a gente vê nos gibis.

Ficaram mais um minuto em silêncio. O homem do canto já abandonara a aranha e agora olhava fixo para o chão, com a cabeça encostada na parede. O outro retomou o assunto:

- Eu prometi pôr ele numa escolhinha de futebol, sabe!? Eu disse: “espera o pai arranjar um emprego que eu vou te pôr na melhor escolhinha de futebol dessa cidade”. Eu lembro que ele sorriu e me abraçou. Adorou a idéia. Mas tá difícil arranjar esse maldito emprego.

O homem silenciou e tirou mais uma vez o telefone do gancho para ter certeza que ainda estava funcionando. Olhou para o homem imóvel no canto da sala. Ele ignorava o falante de modo soberbo, desprezando cada palavra proferida pelo outro. Isso irritava o homem ao telefone.

- Tu não entende, né?

O homem ao canto da sala virou a cabeça vagarosamente em direção ao outro, olhou-o por alguns segundos e então virou novamente a cabeça até encostá-la na parede. Foi o estopim.

- Filho-da-puta!

Levantou subitamente da cadeira deu três passos rápidos e agarrou o homem ao chão pelo colarinho. Deu-lhe três tapas fortes no rosto enquanto gritava.

- Tu não entende, filho-da-puta! Tu nunca vai entender!

Largou-o empurrando ao chão e voltou à cadeira, bufando, completamente vermelho de raiva. No canto da sala o homem tentava tossir e percebia-se um fio de sangue saindo de sua sobrancelha. Ficaram no mais absoluto silêncio.


*


Estava com as mãos na cabeça e com os cotovelos escorados sobre a mesa quando o telefone finalmente tocou. Ergueu a cabeça, ficou olhando o aparelho até o terceiro toque, quando finalmente o atendeu.

- Alô!

- Tá feito. Tô com o dinheiro. Pode dar cabo.

- Mas eu pensei que...

- Não pensou nada. Dá cabo e pronto! Entendeu?

- Sim, entendi.

Desligou. A conversa não durou mais de alguns segundos. Ele voltou a olhar para o homem caído, escorado na parede que, por sua vez, já havia entendido tudo. Tentava inutilmente passar as mãos pelos buracos das algemas e resmungava palavras abafadas pela mordaça. O homem ao lado do telefone se levantou, se aproximou do outro, pegou o revólver da cintura e mirou na cabeça daquele que havia mudado sua feição do desprezo ao pavor. As palavras lhe saíram calmas e automaticamente.

- Tem coisas que a gente simplesmente tem que fazer.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Soneto de amor


Olhando de lá
O tchau sem partir
O amor a ferir
O medo de estar

Olhando daqui
O ar sem se dar
O mar sem amar
O oi sem sorrir

Mas mais triste é o pesar
Do homem, na estrada
Solitária de andar:

- Não adianta tentar,
Não amo nada
Que posso tocar.

domingo, 9 de agosto de 2009

Direito do consumidor


Vinha a passos calmos, caminhando com as mãos no bolso. O outro, ainda que de costas, sentiu que alguém se aproximava. Virou-se e viu um homem bem vestido já interrompendo seu caminhar e parando atrás dele. Voltou todo o corpo ao homem parado e abriu um sorriso.

- Boa noite, patrão.
O homem consentiu com a cabeça.
- Que que vai ser?
- De que que tem?
- Carne, coraçãozinho e frango.
- Um de carne.
- Um?
- Isso.
- É pra já.
Voltou-se novamente ao protótipo de churrasqueira feito de latão e puxou um dos vários espetinhos amontoados no canto e retirou o papel laminado.
- Farofa, patrão?
- E pimenta.
- A pimentinha, vou ficar devendo, patrão.
- Tudo bem.
- Então, tá na mão.
Esticou o braço, oferecendo o espetinho de carne com farofa. O homem puxou a carteira.
- Quanto?
- É dois pila.
Puxou uma nota de dez e entregou ao outro, aproveitando para pegar o alimento com a mesma mão.
- Pô, patrão, tô sem troco.
O homem já havia comido um dos pedaços.
- Não tem troco? – voou um pouco de farofa da boca à calçada.
- Me quebraram com uma nota de cinquenta hoje, patrão. Vou ficar devendo.
Já no segundo pedaço, o homem pensou por um segundo.
- Então me vê o resto em espetinho.
- Mais quatro, patrão?
- Isso.
Ainda que decepcionado, o outro consentiu.
- De que que vai ser, patrão? – podia-se perceber certa tristeza em sua voz.
- Tanto faz.
O outro recolheu mais quatro dos espetinhos do canto e esticou o braço entregando-os ao homem.
- Sem o papel.
- Sem?
- É.
O outro tirou o papel laminado e, mais uma vez, ofereceu-os ao homem. Este, que já havia acabado de comer seu primeiro espetinho, pegou os outros quatro com uma mão só e lançou-os o mais longe possível à rua. Surpreso, o outro gritou.
- Que é isso, patrão? Pra que fazer isso?
Calmamente, o homem pegou um guardanapo de papel, limpou as mãos engorduradas e a boca enfarinhada e, só então, sentenciou:
- Direito do consumidor.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Sem título


Todos os dias, quando chegava em casa, depois do trabalho, encarava a sala vazia por alguns instantes e então se dirigia até o calendário fixado à parede. Empunhava a caneta estrategicamente posta sobre a escrivaninha e riscava o dia que havia passado. Dava dois passos para trás e ficava imóvel, olhando o calendário e se perguntando se os dias riscados, na verdade, representavam um dia a mais ou a menos.

sábado, 13 de junho de 2009

Seu Romero


Acordou já se sentando na beira da cama. Acostumou os olhos com a luz e, ainda sentado, calçou os chinelos de pano. O relógio marcava 6:30 da manhã. Era sua rotina: dormia cedo, lá pelas nove da noite, e acordava cedo. Levantou-se e foi ao banheiro urinar. Lavou as mãos, olhou-se no espelho, o cabelo e o bigode grisalhos despenteados, lavou o rosto. Droga, disse ao molhar o a camiseta do pijama azul claro que ganhara de sua filha no Natal passado. Era verão, o pijama era de mangas longas, calça, mas era sua filha que o tinha dado. Fazia questão de usá-lo, mesmo que passasse calor. E ele passava. Secou o rosto e caminhou em direção à cozinha. Olhou a mesa vazia, apenas o guardanapo de tecido com o cesto de frutas de plástico no centro da mesa. Parou e ficou alguns segundos lembrando de quando acordava e encontrava o café pronto sobre a mesa, o bolo de fubá, o pão fresquinho. Ah, saudade da minha velha, suspirou. Empurrou o cesto artificial mais para o canto, pegou a toalha e cobriu metade da mesa. Xícara, colher, açúcar, o pão de ontem, o bolo de fubá da padaria da esquina, mofado. Dois dias e já mofou? Indignado, resmungou qualquer coisa sobre os bolos durarem mais quando era criança. Ou será que é porque com mais pessoas em casa comia-se mais rápido? Não, em seu tempo a qualidade dos bolos era melhor e pronto. Aliás, não só dos bolos, de tudo. Até as frutas amadurecem mais cedo hoje em dia, e não tem a mesma cor e o mesmo sabor. A fruta roubada do pé do vizinho sim que tinha um gosto bom. Ria enquanto despejava a água quase fervente no filtro com café, no velho bule de metal. Sempre roubávamos as laranjas do falecido Seu Martins. Sai daqui seus moleques, antes que eu solte o Faísca. Que medo que nós tínhamos do Faísca, aquele pastor era brabo que só ele. Era só o Seu Martins gritar a temida frase e saíamos correndo desesperados.
O café já estava passado. Deixou as lembranças de lado, serviu o café na xícara, ligou o rádio, sentou-se e passou a desmanchar o pão em pequenos pedaços. Como não havia mais bolo de fubá, o que tinha estava terminando de mofar já dentro do lixeiro, se contentou em despedaçar o pão e soltar os pedaços dentro da xícara de café preto. Estava feito o seu desjejum. Olhou novamente a mesa, as migalhas do pão velho sobre a toalha. Molhou a ponta do dedo com a língua e começou a trazer algumas até sua boca. Baixou os olhos, se levantou, recolheu a toalha e a sacudiu dentro do tanque de lavar roupa. As migalhas desceram pelo ralo junto com a água da torneira. Viu um pássaro sobre o poste de luz da rua, pensou: será que ele me viu fazer tamanha crueldade? As migalhas que ele acabara de ir água abaixo antigamente era jogada no quintal de casa. Ele se sentava na varanda e observava os pássaros que vinham recolher aqueles minúsculos pedaços de pão com o bico. Agora, era o pássaro que, do alto do poste de luz, observava o velho homem no terceiro andar de um retângulo de concreto jogando as migalhas que ficaram pelo ralo do tanque.
O velho terminou de tirar a mesa, lavou a louça, deixou-a no escorredor e voltou para o quarto para trocar de roupa. Puxou uma bermuda surrada que tinha já guardada com o cinto posto, e uma camiseta leve. No rádio haviam dito que faria um dia quente, e ele sabia que ali, em volta de tanto concreto, o calor era bem maior que em volta das árvores. Calçou a sandália, pôs o boné na cabeça e saiu, como fazia todos os dias. O relógio já chegava perto das oito. Ao descer as escadas, se encontrou com Daniele subindo. Daniele tinha uns oito anos, era filha do casal do apartamento ao lado do dele, era muito educada, sempre o cumprimentava. Teve boa educação dos pais, com certeza, pensava. Oi, seu Romero. Oi, Daniele, tudo bem!? Tudo, seu Romero. E seguiu subindo as escadas tentando pular os degraus de dois em dois. Oi, seu Romero. Lembrou das palavras da criança, e de quando seu pai contava a história do seu nome. Nós estávamos na romaria de Nossa Senhora, filho, tua mãe tava de barriga fazia uns bons meses. Nós fomos descalços pra pagar a promessa que fizemos. Tu sabe que tua mãe não podia engravidar, né? Pois é, aí o pai e a mãe fizeram uma promessa que se a mãe engravidasse, nós iríamos ao santuário de Nossa Senhora a pé e descalços. Como ela engravidou de ti, nós fomos. E no meio do caminho, com todas aquelas pessoas passando, tua mãe começou a passar mal. Ela me disse, que ia parir ali mesmo. E foi exatamente o que aconteceu. Várias pessoas nos ajudaram e tu nasceu, no meio da romaria. Por isso que te batizamos Romero. Era uma boa história, mas ele sabia que nada daquilo era verdade. Seu pai fantasiara uma história bonita para lhe contar, mas o verdadeiro motivo era um cantor de bolero que o pai adorava: Romero Paolo. Tudo bem, pai. Ele também gostava mais de contar essa história pras pessoas.
Já lá embaixo, encontrou-se com o porteiro. Bom dia, seu Romero. Bom dia, José. Como tá o Pedrinho? Tá bem, seu Romero, começa as aulas daqui uns dias. Esse guri vai ser bom, José. Deus te ouça, seu Romero. Se despediu com um sorriso e saiu portão afora. Na calçada, deparou-se com o mundo real novamente. O mundo de metal e concreto. Carros por todos os lados, passando por ruas asfaltadas, cercadas por prédios enormes de concreto. Suspirou. Dentro de seus olhos se via a nostalgia do mundo de grama e madeira que conhecia quando jovem. Naquela época se preocupava em não pisar no rastro fisiológico que os cavalos deixavam nas estradinhas de chão batido que levavam de uma casinha de madeira à outra. Sai caminhando pela calçada, segurando a respiração de quando em quando. O rastro de monóxido de carbono deixado pelos carros irrita seu nariz e garganta. Saudade dos cavalos!
Segue rua abaixo, até chegar ao ponto de táxi. Os dois ou três taxistas ali parados mal o vêem e já gritam: ô, seu Romero. Senta aí dar esse dedinho de prosa. Seu Romero não pensa duas vezes, sorri e senta, começando a conversa com os taxistas. Alguns saem para atender chamadas, outros chegam vindo de outras. E seu Romero é único, é fiel, é singular. É o centro das atenções e isso o deixa feliz. Gosta de contar os causos de quando jovem e ver a cara dos taxistas que também arriscam alguns de vez em quando. Seu Romero fica lá, sem ver o tempo passar. Almoça com os taxistas, no restaurante ali em frente. Seis reais o bifê livre com suco. Mas seu Romero sempre substitui o suco por um copo de vinho tinto. Voltam ao ponto, toma chimarrão, conversam sobre esportes, sobre política, sobre futilidades gerais. Entre fatos novos e acontecimentos passados, ficam horas conversando.
Seu Romero se despede. A velhice não vem sozinha, explica, vou para casa descansar um pouco. Despedem-se com seu Romero dizendo: qualquer hora passo aqui de novo. Os taxistas sorriem e aceitam as palavras do homem, sabendo que o “qualquer hora” já está marcado para a próxima manhã. Seu Romero acena e segue rua acima, voltando para seu apartamento. Vê um garoto passando mascando um chiclete com um boné enterrado na cabeça e dois círculos enormes de plástico nas orelhas. Deles saem um som que até mesmo quem passa a metros de distância consegue ouvir. Seu Romero acha aquilo estranho. É o barulho contra o barulho, um querendo ser mais alto que o outro. É o aparelho de som querendo vencer os carros, as buzinas, as pessoas gritando nomes, os cachorros latindo, os vizinhos brigando. Aquilo tudo é estranho para seu Romero. Acelera o passo para chegar rápido em casa. Abre o portão, José lhe cumprimenta: já de volta, seu Romero? Sim, José, lá fora tá uma balbúrdia. É, seu Romero, hoje em dia é assim. Sim, o homem concorda com ar de tristeza. Sobe as escadas vagarosamente, se apoiando no corrimão. Não encontra mais ninguém pelo caminho. Destranca a porta e entra. Suspira aliviado. O relógio marca quatro horas, mais cinco até dormir. A solidão entrou junto com seu Romero pela porta. Vai até a cozinha, liga o rádio e se senta à mesa. Fica ali, ouvindo o mundo que acontece do lado de fora do seu apartamento, sem ter vontade de ir lá fora para ver tudo aquilo de perto.
Às nove da noite, vai dormir.