domingo, 24 de fevereiro de 2008

Do tamanho de uma laranja


- Do tamanho de uma laranja.
Balbuciou segurando o elemento de sua prosa. O cigarro já estava pela metade no cinzeiro sobre a mesa, visivelmente não havia sido tragado ainda. Estava preocupado demais com o objeto em sua mão.
- Do tamanho de uma laranja.
Lembrou-se da infância, do dia que achou que o mundo ia acabar (maldito Nostradamus) e correu sob a chuva, chorando, procurando um lugar que não fosse mundo para se proteger. Quanto mais corria, mais se via em meio ao mundo. Pessoas passando, rostos desconhecidos, carros velozes, homens gritando, mulheres chorando, crianças pedindo esmola. Enfim, encontrou uma laranjeira, um dos poucos seres frutíferos com o qual se deparou. Ficou ali embaixo, escondido, esperando o mundo acabar. Adormeceu.
- Do tamanho de uma laranja.
Sonhou ouvir a porta se abrindo e dela surgir sua filha com cinco anos de idade, sorrindo, correndo em sua direção de braços abertos, gritando “papai”. Ela usava aquele vestido laranja que ela mesma escolheu, olhando as vitrines do primeiro shopping da cidade. Sempre foi independente, desde pequena. E como ele queria que não fosse. Esperava que ela precisasse dele por toda a vida... O seu sorriso. Não havia imagem mais bonita. A não ser, talvez equiparável, o dia em que viu a porta da igreja se abrindo e por ela entrando a mulher mais linda em um vestido de noiva, aquela que veio a ser a pessoa com quem dividiu sua vida por longos vinte e sete anos.
- Do tamanho de uma laranja.
Redonda como a laranja era a bola de futebol que tanto havia chutado contra a parede de sua casa. A mesma bola que ganhara quando tinha mais ou menos uns dez anos. Seu pai dissera que era oficial, a mesma que Garrincha usava, e ele acreditara. Após dez embaixadinhas (demoradas tentativas), ia ao campinho de terra batida e dividia a amada bola do Garrincha com os amigos e com os não tão amigos que o esperavam ansiosos. Se não o deixavam fazer gol, nada mais justo que recolher a bola embaixo do braço e terminar o jogo ali, sob os protestos dos atletas.
- Do tamanho de uma laranja.
Quantas laranjas podia comprar com o seu primeiro salário? Se bem que aquilo que ganhava não poderia chamar de salário, era seu pagamento diário. Conforme o cliente e a marca de seu sapato, aumentava o equivalente a cinqüenta centavos o preço da graxa. Ao final do dia, o suficiente para um lanche e a passagem de volta para casa. Ao final da semana, sobrava um pouco para o picolé ou o refrigerante. Ao final do mês, ah, um salário. Sim, era pouco, mas era seu.
- Do tamanho de uma laranja.
Seus avós gostavam de laranja. Todos os dias faziam-no recolher umas dez ou doze para o suco do meio-dia. Ele as recolhia e as lavava, o avô dividia-as em duas partes milimetricamente cortadas, perfeitas, tirava-lhes o suco e a avó adoçava com açúcar cristal, aquele mais grossinho, ela dizia que não havia açúcar melhor. Tudo perfeito! Não necessitava nem pôr água, as laranjas davam bastante suco. Ah, e como era bom aquele suco. E como eram bons aqueles avós. Que Deus os tenha!
- Do tamanho de uma laranja.
Será que era uma laranja-do-céu ou uma laranja-de-umbigo? Isso o médico não havia dito. Também, não importava. Só lembrava daquelas cinco palavras: do tamanho de uma laranja. Quem diria? O tumor havia se desenvolvido a tal tamanho. Já eram freqüentes as dores de cabeça, principalmente do lado esquerdo, onde o tumor estava alojado, as náuseas, as tonturas...Estava surpreso de não ter desmaiado e despencado da cadeira ainda. Não, a laranja o segurava, só podia ser isso. A mesma laranja que o derrubava, agora o estava segurando ali, firme com seus pensamentos. Maldita laranja!
- Do tamanho de uma laranja.
Ele sabia que não havia mais o que fazer. Admirando a laranja em suas mãos, aquela frase retumbava-lhe o ouvido, fazendo sua cabeça latejar. A semiescuridão do quarto onde estava já não lhe incomodava. Era tarde demais e ele sabia disso. Via que seu tempo estava acabando, queimando como o cigarro chegando ao final em seu cinzeiro...E ele nem o havia tragado.
- Do tamanho de uma laranja.

3 comentários:

Melissa disse...

Aceite um humilde elogio desta réles bixa: muito bom.


:D

- Guga (: disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Guga disse...

Acho que é meu preferido.