quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Pressa


7:30, o relógio desperta. Já estou meia-hora atrasado. Que ótima maneira de começar o dia. Corro para o chuveiro, tomo uma ducha, me seco mal e porcamente e penteio os cabelos ainda úmidos. Vôo para a cozinha, engulo o café de uma só vez, enquanto tento calçar o sapato sem o auxílio das mãos. Inútil. Tenho que me abaixar para fazer o serviço. Em frente à porta, percebo a falta das chaves. Começo uma procura cega pela casa inteira, não há tempo para pensar o que fiz, onde a deixei a última vez que a usei. Por fim, a encontro dentro da fruteira sobre a mesa, perdida entre duas laranjas e uma maçã podre. Tenho que jogar essa maçã no lixo, mas não agora, agora estou sem tempo.
Não tenho paciência para esperar o elevador. Desço as escadas correndo, já no térreo esbarro no porteiro: desculpa, seu Hélio! Abro o portão e corro até a parada de ônibus. Ônibus, ainda tenho que pegar ônibus. Maldita hora de ter que levar meu carro para conserto. Essa peça tem que ser importada, chefia, vai levar uns quatro dias pra fazer o pedido e conseguir arrumar tudo. Quatro dias? Se não mais, chefia. Recorro ao ônibus então, um táxi não sairia em conta. Quanto tempo que não pegava ônibus, desde meus tempos de colégio e universidade. Aquela multidão se apertando, se roçando, aquele calor, todos suando feito porcos, pisoteando uns aos outros...argh! Já sinto falta do meu som com ar condicionado dentro do carro.
Chego à parada, finalmente. Passa um ônibus, passa dois, passa outro, mais outro. Merda! Olho o relógio: 8:30. Como demorei. Meu ônibus, finalmente. Subo os degraus já esperando pelo pior, mas não, não está lotado, ainda resta uma meia dúzia de cadeiras vagas. Pago a passagem, a qual encareceu bastante desde a última vez que me atrevi a pegar um ônibus, procuro com os olhos um lugar confortável e seguro para sentar. Perfeito, encontro um assento do lado de um segurança daqueles de prédios. Peço com licença e me sento. Confortável até, fora o fato de o segurança ter os ombros demasiadamente largos, me deixando pouco espaço. Não há ar condicionado, mas entra um vento agradável pela janela. Tudo oquei até então. Pessoas descendo, outras subindo...Duas, três paradas. Reparo na senhora que entra no ônibus. Deve ter por volta de uns 50 anos, pele que mistura o branco e o negro, parece bastante suada. Entrou cheia de sacolas plásticas, não consigo identificar o que há dentro. Passou a catraca e veio caminhando pelo corredor até encontrar seu assento: em frente ao meu.
Tudo certo até o ônibus voltar a pôr-se em movimento. Começo a sentir um cheiro característico, algo como cebola, creio, me repugna. O vento que entra pela janela não é o suficiente para espalhar o fétido odor, ao contrário, o vento o traz direto para minhas narinas. Esses com certeza não são meus dias de sorte. Olho para os lados procurando o detentor desse cheiro. Olho para o segurança, finjo ver algo do lado de fora da janela, faço cara de preocupado, estico o pescoço e aproveito para cheirar a região da sua axila sem que ele note, mas não, não vem dele.
Continuo minha busca já tentando analisar as pessoas que começam a se algomerar no corredor, com as duas mãos agarradas aos ferros do ônibus e, conseqüentemente, com os dois braços erguidos também, fica mais fácil perceber quem pode ser o espécime mal-cheiroso. Tem o homem de Havainas, com duas rodas de suor na camiseta, embaixo das axilas; tem a mãe com uma criança de uns sete anos que tenta não se segurar em nada enquanto o ônibus se movimenta, o que rende alguns esbarrões e pisões nas pessoas próximas, enquanto a mãe grita para que ela pare com isso; o estudante de mochila nas costas, atrapalhando a passagem pelo corredor dos outros passageiros que às vezes resmungam alguma coisa abafada pelo som do mp3 do estudante. Enfim, ninguém que possa ser o meu procurado.
Ainda aflito com aquele cheiro misterioso, penso em parar minha busca. Olho novamente para frente procurando algum ponto fixo de concentração para abstrair qualquer odor e vejo a senhora que entrou no ônibus paradas antes sentada na minha frente. Ela é uma das poucas pessoas que eu não averigüei ainda. Provavelmente me escapou aos olhos, isso acontece às vezes. Quando algo nos está próximo demais, acabamos por não enxergá-lo. Só pode ser ela, penso. Faço menção em me curvar e cheirá-la para constatar minhas suspeitas, mas percebo o segurança ao meu lado me olhando desconfiado, com ar de reprovação. Encosto-me novamente no banco e finjo que nada aconteceu. O segurança continua me olhando, deve estar achando que vou assaltar alguém. Também pudera, venho analisando cada pesssoa nesse ônibus desde as últimas seis paradas.
Eu disfarço, olho pela janela, tento fugir daquele cheiro, mas é impossível. A senhora está a menos de um metro de mim, não há como fugir dela e de seu cheiro de cebola. Ergo um pouco a cabeça tentando respirar o quanto eu posso do ar fresco que entra pela janela, mas é em vão, continuo inalando a cebola da senhora na minha frente. O cheiro me nauseia, me deixa tonto, penso que vou desmaiar, o segurança continua me olhando desconfiado, o motorista aumenta a velocidade, mais vento entra pela janela, mais cebola entra em minhas narinas, o cheiro fica mais forte, não agüento, puxo a campainha, o ônibus pára e saio correndo pela porta de trás com a mão na boca para não vomitar ali mesmo. Vomito no primeiro canteiro que vejo ao sair do ônibus. Consigo ouvir o segurança perguntando de dentro do ônibus: alguém foi roubado?
Me recupero, passo a mão na boca enquanto vejo o ônibus partindo, ficando cada vez menor. Que cheiro horrível. Não deviam permitir que pessoas assim, fedorentas, pegassem ônibus. É uma afronta à sociedade, aos bons costumes, a todas as regras de higiene e saúde, sem falar na falta de respeito com trabalhadores como eu, ou como o segurança, ou todos os outros que estavam embarcados tendo que sentir aquele cheiro horrível. Droga! Estou mais atrasado ainda! Ponho-me a caminhar em direção a um táxi que vejo estacionado perto da parada. Em ônibus eu não entro mais, nunca. Enquanto caminho, novamente sinto aquele cheiro nauseante. Impossível, a cebola ficou impregnada em mim. Realmente hoje não é meu dia de sorte. Tento me livrar do cheiro, mas não consigo. Ele me persegue. O táxi está para sair, com certeza procurando outro ponto na pela falta de clientes onde ele está. Não posso perdê-lo, tenho que chegar ao trabalho. Dou uns quatro passos corridos e ergo a mão vigorosamente chamando: táxi! Ele não me ouve e segue seu caminho. Eu fico estático com o braço erguido, me lamentando, e percebo, num misto de nojo e vergonha, a roda de suor formada debaixo de minha axila. Sinto a cebola exalando todo o seu potencial fétido direto no meu rosto. Abaixo o braço e fico ali, parado no meio da calçada, me sentindo o pior dos seres humanos. Realmente, não é meu dia de sorte.

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