domingo, 9 de março de 2008

Mesa pra dois


Pôs a cebola descascada em uma bacia com água. Espalhou cinco tomates em cima da pia. Puxou tabuleiro e faca do armário, lavou os tomates um por um e começou a picá-los. À medida que o espaço do tabuleiro escasseava, punha os tomates picados em um prato fundo. Fim dos tomates, puxou a cebola da bacia. Era uma cebola grande e, a cada corte proporcionado pela faca, seus olhos enchiam de lágrimas. Chorava, ria, fungava, esfregava o pulso nu em pêlos pelo olho para amenizar, era inútil, chorava e ria, ria do absurdo de se chorar ao cortar uma cebola.
A panela de ferro já estava no fogo, o óleo que escorria pelo seu interior, os micro-pedaços de cebola que caíam, alguns solitários, outros grudados em grupo, começavam a fritar. Mexia com a colher de pau enquanto despejava o sal. Aos poucos ia jogando o guisado e este ia fritando com a cebola. Saía do rosa e ia a um tom parecido com o cinza. Ao encontro deles, o prato de tomates. Conviviam assim, todos juntos em uma panela, cozinhando sob um fogo baixo que lhes daria mais tempo para se misturar perfeitamente, o caldo liberto da carne com a água que saía dos tomates, as cebolas perdendo o sal para o caldo, o caldo evaporando e criando gotículas na mão que mexia o molho. Mais sal, um pouco mais de água, pimenta em pó, tudo para dar-lhe gosto.
Outra panela de ferro na boca ao lado. Esta portava água com bolhas de óleo e sal preso ao fundo. Só esperava a água ferver para despejar a massa. Achava lindo como cada coisa funcionava tanto singularmente quanto em conjunto e como o conteúdo daquelas duas panelas se juntaria mais tarde para formar uma coisa única. Pensava isso ao mesmo tempo em que ia arrumando a mesa. Os pratos em lados opostos, de frente um para o outro. Garfo do lado esquerdo, faca do lado direito, a colher para enrolar o espaguete, a taça para o vinho ao lado do copo para a água, o guardanapo e claro, as velas. Seria um jantar romântico, à moda antiga, à luz de velas, como requer a tradição. A água borbulha, corre para a cozinha e despeja a massa. Calcula quinze minutos. O molho já está quase pronto. Experimenta, está bom.
O molho vai para uma tigela, a massa está sendo despejada no escoador. Esquece ambos ali por uns dois minutos até que luta contra a rolha da garrafa de vinho. Vinho servido em ambos os copos, acende as velas. Está quase na hora. Volta para a cozinha levando os pratos da mesa, serve uma porção razoável de espaguete em cada um, por cima despeja o molho vermelho, o cheiro o faz salivar, um pouco de queijo ralado e duas folhinhas de manjericão para enfeitar. Os pratos voltam para a mesa. Acende a vela e dá três passos para trás para observar a mesa posta. Sorri orgulhoso.
O relógio marca nove da noite, está na hora. Senta-se, põe o guardanapo sobre o colo, toma um gole do vinho, enrola três ou quatro fios de espaguete no garfo com a ajuda da colher servindo-lhe de base e introduz a comida à boca. Mastiga de olhos fechados em demorados e deliciosos movimentos de maxilar.
Respira fundo e diz para si mesmo: perfeito!

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