terça-feira, 8 de abril de 2008

Embasbacado


A imagem dela me vinha à cabeça a todo o momento. Deitado na cama, olhava para o teto com o sorriso mais idiota do mundo. Se houvesse um espelho aqui agora eu veria meus olhos brilhando. Eu lembrava dela no meio da pista dançando, aquela vertigem das luzes piscando freneticamente, ela parecia dançar em câmera lenta, quando, na verdade, se mexia muito rápido, tão rápido que eu temia que a qualquer momento um pedaço dela se desprendesse do corpo. Isso seria o maior pecado de todos, uma vez que todas as partes de seu corpo estavam simetricamente presas umas as outras. Pela primeira vez não imaginei a garota nua quando a vi. Prestei mais atenção no seu rosto, no formato de sua boca...Fui ao céu e voltei quando, por uma fração de segundos, os olhos dela cruzaram com os meus. Um frio repentino invadiu minha barriga, meus pêlos se arrepiaram e meu coração disparou: estava apaixonado.
Ela dançava maravilhosamente. Eu a mirava como se fosse a representação de todas as belezas do mundo. Fiquei olhando para ela a festa inteira, não tinha coragem de me aproximar. Eu não sou o que se pode chamar de homem bonito, muito pelo contrário, sou feio. Sim, sou feio, muito feio. Pareço construído com pedaços de corpos alheios uns aos outros, como o monstro de Frankstein. Até ele deve ser mais bonito, costumo pensar, procurando autopiedade, sem sucesso. O espelho sempre foi uma tortura para mim. Se pudesse, escovaria meus dentes, me barbearia, me pentearia sem precisar me ver no espelho, mas é impossível. Se ao menos tivesse o dom da fala, mas nem isso me foi disponibilizado. Por essas e outras, nunca me apaixonei. Não é aconselhável aos feios sem talento retórico que se apaixonem, a recíproca dificilmente será verdadeira. Meus pais devem ter assinado o pacote econômico, o mais precário de todos. Ela estava saindo e eu a segui. Pagamos a conta quase simultaneamente. Ela estava com outras amigas. Entraram todas em um Gol bordô e partiram. Eu já estava na cola delas com meu Mercedes prata. Sim, ao menos isso, dinheiro é tudo o que eu tenho, ou ao menos, tudo o que vale em mim. Quando a amiga a deixou em casa, me espantei ao perceber que ela morava apenas a algumas quadras da minha. Memorizei o endereço e fui embora. Sorri, era o fim das noites nas zonas, nas casas de perdição, dos prazeres efêmeros que duravam até o primeiro orgasmo e se diluíam enquanto eu pagava a conta.
O teto parecia querer me engolir. Sim, não suportava me ver sorrindo. Tantos anos sendo cúmplice de meus lamentos, agora que finalmente me via sorrindo, queria me engolir, queria acabar com a alegria ilusória que pateticamente me contaminava. E ela dançava, no meio da pista, como nenhuma outra mulher. Pode me engolir, eu gritei. Pode me engolir! Minha memória não será apagada, teto idiota. Gargalhei na cara dele, teto imundo. E ela dançava. Ah, eu aprenderia a dançar por ela. Aprenderia o Cha-cha-cha por ela. Embasbacado por amor, era como me sentia. Adormeci.
No dia seguinte, ao fazer o caminho para a universidade, mudei o trajeto para passar na frente da casa dela. Espantei-me quando a vi parada no ponto de ônibus. Eu poderia ter parado e lhe oferecido carona, mas ela com certeza não entenderia. Acharia que era um assaltante, um seqüestrador, um estuprador ou pior, veria que sou feio, muito feio. Passei reto, daquela vez. Fiquei imaginando uma maneira de me aproximar sem causar-lhe espanto, o que era difícil. Comecei a passar todos os dias pelo mesmo caminho, e todos os dias a cena se repetia, ela parada no ponto de ônibus e eu passando em minha Mercedes rezando para que ela corresse até mim, pedisse para eu parar e se oferecesse para uma carona. Nada disso aconteceu. Duas semanas se passaram, o teto já estava bem perto de me engolir e eu já não demonstrava nenhuma resistência. Estava perdendo a guerra, ele ria da minha cara. Frouxo! Ouvia-o dizer. Teto imundo.
Era sábado, sabia que ela estaria na mesma boate, novamente. Decidi ir para lá. Pus minha melhor roupa, a mais jovial, a mais da moda que conhecia, e que ainda estava longe do padrão. Passei meu perfume mais caro e me direcionei à casa dela. Parei do outro lado da rua e fiquei esperando. Às onze horas em ponto o Gol bordô apareceu, buzinou, e ela desceu com seu vestido prata lindo, que moldava completamente seu corpo. Combina com meu carro, pensei. O Gol pôs-se em movimento e eu o segui. Foram para a boate que eu esperava, entraram. Quando consegui entrar estava completamente lotada, cada pedacinho de chão era ocupado por alguém. Na pista alternativa havia algumas pessoas bebendo em suas mesas ou no bar, mas certamente ela não estava lá, deveria estar dançando da maneira que ela fazia maravilhosamente. Fui para outra pista. O pescoço espichado aumentava meu poder de visão. Fiquei uns dez-eternos-minutos procurando-a pela pista até que, enfim, a vi com suas amigas. Sem perdê-la de vista, fui até o bar e pedi uma dose de uísque. Com guaraná? Perguntou-me o atendente. Só com gelo, respondi. Veio a primeira dose. Bebi rápido demais. Mais uma, gritei. Outra dose. Mais rápido ainda. Mais uma! Copo seco. Outra! Mais uma! As luzes começavam a embaçar. Ela dançava. Eu não tinha coragem de ir falar com ela. Mais uma, gritei enquanto batia o copo seco no balcão. Ela ainda dançava e eu bebia. Faltava-me coragem. Mais uma, atrapalhei-me quando gritei. O atendente me trouxe mais uma dose mesmo sem entender direito o que eu havia dito. Olhei fixamente para aquele copo e virei todo o líquido de uma só vez. O uísque desceu cortando minha garganta. Olhei fixamente para a mulher dos meus sonhos e me pus em movimento em sua direção.
As pessoas atravessavam meu caminho, eu ia empurrando-as sem querer saber de mais nada. Perdia o equilíbrio a cada esbarrão de ombros, a cada pisão de pés. Segurei-me em um cara que passou do meu lado, ele gritou qualquer coisa e me empurrou de volta. Ela estava cada vez mais próxima. Novamente, os olhos delas se encontraram com os meus, mas dessa vez eles pareciam preocupados. A sobrancelha franzida dizia-me que não haveria qualquer gesto sutil da parte dela. Segui em frente, cambaleando, até que cheguei ao seu lado e disse cuspindo gotículas de saliva: eu te amo! Ela se esquivou já pondo as mãos em meu peito e me empurrando. Sai daqui, li em seus lábios enquanto perdia o equilíbrio e caía para trás. Sentado no chão, tentei levantar. Fui ajudado por dois seguranças que me ergueram vigorosamente pelos braços e começaram a me carregar em direção à saída. Eu te amo, eu gritava para ela que virava de costas. Os seguranças me jogaram porta a fora, um deles pegou minha carteira e tirou 130 reais de dentro: sorte tua que tinha dinheiro nessa merda, o maior deles gritou. Eu estava jogado na calçada do lado da boate. Virei para o lado e vomitei. O uísque voltou queimando minha garganta novamente. Muitas pessoas passavam por mim, algumas rindo, outras com cara nojo, algumas poucas com piedade nos olhos. Eu amo ela, eu gritava, eu amo ela!
Sentado, escorado na parede, me vi como os todos os babacas que se apaixonam. Isso nunca havia acontecido antes. Podei, dessa vez, todas as minhas defesas contra as banalidades da paixão. Agora eu me via clichê como o amor. Clichê como o sofrer por amor. Eu me via banal como qualquer projeto de homem que vomita depois de um porre. As putas sentiam minha falta, riam de mim. Trouxa! Babaca! Ouvia-as gritando. O vômito escorria pela calçada e ia de encontro à rua, mas ele não levava junto o amor que sentia por ela. Vomitar não era o bastante para expurgar o sentimento, expurgava apenas o uísque. Eu só queria chegar em casa e ser engolido pelo meu teto imundo e depois ser cuspido de volta, sem memória alguma. Alguma coisa me dizia que o uísque iria fazer isso por mim. Se eu pudesse, beberia mais.

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