terça-feira, 22 de abril de 2008

Casamento moderno


- Que mancha é essa na tua camisa, Carlos? – ela questiona segurando pelo colarinho a camisa retirada do armário.
- Que mancha, Cláudia? – ele pergunta deixando a remoção da gravata de lado.
- Exatamente, Carlos: que mancha? Não há mancha alguma aqui. Nem um resquício de batom, nem um fio de cabelo de outra cor, por deus, Carlos, não tem nem cheiro de um perfume feminino diferente do meu na tua camisa.
- Eu não estou entendendo, Claúdia, aonde tu quer chegar com isso?
- Tu é fiel, Carlos, tu não me trai.
- Óbvio que não te traio, Cláudia. Eu te amo, por que te trairia?
- Porque sim, Carlos. Porque estamos no século vinte e um e os maridos normais traem suas mulheres. Por que diabos tu não me trai, Carlos?
- Porque eu te amo, Cláudia – ele responde sem entender a situação.
- Dane-se o amor, tu tem que me trair. Eu tô cansada de me reunir com minhas amigas e ouvir elas todas contando dos casos dos seus maridos. Cada semana tem uma história diferente e eu sempre sem história alguma.
- Mas... – ele tenta buscar uma explicação.
- Cala a boca e me ouve. Pra tu ter uma noção, o marido da Camila a trai com duas mulheres ao mesmo tempo. Tu imagina que emocionante é a vida dela? Pois é, eu a invejo mortalmente. A Priscila então, o marido dela é conhecido em todos os puteiros da cidade e tu nem pra comer uma puta que seja, Carlos. Faça-me o favor!
- Mas Cláudia, eu nunca fui a um puteiro e...
- E tu diz isso com orgulho ainda? É um fraco mesmo. Tu sabia que o marido da Sônia tem um caso com outro homem?
- O Alceu? – ele pergunta, cada vez mais espantado e entrando no jogo de fofocas.
- Sim, o Alceu, Carlos. Ele tem um caso com outro homem. Ou-tro ho-mem! Tu ouviu bem!?
- Meu deus, e eu já dividi o vestiário com ele.
- E por que o espanto? Obviamente, mesmo que se por um milagre ele desse em cima de ti, tu não iria fazer nada, afinal, tu é fiel.
- E hétero! – ele berra com o dedo indicador em riste – Gosto de mulheres. Aliás, de mulher, só tenho olhos pra você, benzinho.
- Aaaaaah! Pára com isso. Me trai, Carlos, por favor, me trai com alguma mulher.
- Eu não entendo o porquê disso agora.
- Não tem que entender, simplesmente faça.
- Não, sou um homem de princípios.
- Que se danem os princípios, tu tem que me trair. Eu não quero ir a mais um encontro semanal com as minhas amigas e ter que confessar que tu não me trai – nesse momento ela senta na beira da cama e começa a chorar pondo as mãos sobre o rosto.
- Claudinha, meu amor, não fica assim – ele senta ao seu lado e a abraça.
- Tira as mãos de mim – se esquivando e ficando de pé novamente. Eu não agüento mais. Até andei pensando em inventar histórias de traições tuas, mas eu não sei mentir e elas logo descobririam.
- Que tipo de amigas tu tem, hein! Os maridos todos uns canalhas e tu admira isso.
- Sim, Carlos, eu as admiro, eu as invejo, eu daria tudo pra ser como elas.
- Mas não será ao que depender de mim. Não te trairia jamais.
- Por quê, Carlos, por quê? – chora compulsivamente.
- Eu te amo, Cláudia, já disse. Jurei ser fiel e assim o serei até o fim.
- Pois então é o fim, Carlos.
- Como?
- É isso mesmo que tu ouviu – secando as lágrimas do rosto - Eu quero o divórcio.
- Tu só pode estar brincando, Cláudia.
- Pois não estou, é a mais pura verdade. Eu quero o divórcio.
- Mas Claudinha, eu te amo.
- Então me traia, Carlos, é a única maneira de eu desistir dessa idéia.
Ele pára e pensa por um momento, mas logo volta a sua postura rígida e sentencia:
- Não, Cláudia. Não te trairei jamais.
- Então não me resta escolha, vou para a casa de mamãe agora mesmo e amanhã meu advogado irá entrar em contato contigo para começar a preparar a papelada.
- Tu vai mesmo me deixar?
- Vou.
- Mas...
- Não tem mas. Eu não posso ser casada com um homem que não me trai. É algo que não tem cabimento.
- Cláudia!
- Adeus, Carlos – ela se dirige à cozinha e pega a chave do carro enquanto ele a segue tentando falar e sendo interrompido por gestos de mão a cada palavra proferida.
Cláudia vai embora.
Naquela mesma noite Carlos vai a uma casa noturna. Entra clamando por uma mulher qualquer. Pega a primeira que aparece pelo braço, leva para um quarto cubicular e transa com ela por não mais de cinco minutos. Veste-se rapidamente e sai, deixando duzentos reais sobre a cama. Põe-se no caminho da casa da mãe de Cláudia. Larga o carro quase em cima da calçada, sobe a pequena escada e bate com força na porta. Cláudia aparece.
- Cláudia, eu fiz, eu fiz, eu te traí. Acabo de sair do puteiro. Olha só, ela até me arranhou – abrindo a camisa e mostrando as marcas de unhas no peito enquanto Cláudia o olha com grande tranqüilidade – viu só!? Eu te traí, já pode voltar para mim,querida.
- Não.
- Não?
- Não.
- Mas por que não?
- Não foi traição, Carlos.
- Como não foi? Eu transei com aquela puta.
- Mas não me traiu, Carlos. Nós não estamos mais juntos, lembra? Logo, não foi traição.
- Mas, meu amor...
- Não, Carlos, chega, tu não me traiu e ponto final. Adeus – bate a porta com força.
Atônito, Carlos caminha vagarosamente em direção a seu carro. Entra, liga o motor e dirige de volta para casa, de volta para a cama na qual, pela primeira vez, dormirá só.

Um comentário:

Ana disse...

hehehe!
legal um personagem ter o meu nome =P...
tu eh uma figuraa!!!! tuas histórias estão bem interessantes =) continue escrevendo sempre o/