quinta-feira, 22 de maio de 2008

Mudança


O interfone toca. Ela atende.
- Sou eu.
Ela hesita, mas aperta o interruptor e ouve o barulho do portão se abrindo.
Não o espera chegar, deixa a porta entreaberta e volta a pôr os pratos dentro da caixa para simular uma distração qualquer. Ele chega, empurra a porta, ela se vira.
- Oi.
- Oi – ela responde enquanto põe as mãos na cintura e solta o ar dos pulmões.
- Eu te trouxe essas flores – dá um passo à frente e estica o braço oferecendo um buquê de rosas.
- Obrigada – sorriso forçado no rosto – Vou pôr na água – se desloca à cozinha, enche um vaso e põe as flores dentro, acomodando-as sobre a mesa da sala.
- E como tu tá?
- Tô bem, tô bem. A mudança tá sendo mais tranqüila do que eu esperava.
- Que bom. Eu passei pra te convidar pra tomar um café. Sabe que tem aquele café da esquina que é ótimo e...
- Desculpa, mas o caminhão da mudança chega logo, não daria tempo.
- Ah tá. É, eu imaginei que não daria, mas passei mesmo assim.
Ambos sorriem e se calam. Os olhos passeiam pelo apartamento sem parar em nenhum ponto, sem querer se encontrar. Passam-lhes mil frases pela cabeça sem que nenhuma seja segura o bastante para ser aproveitada e inserida no diálogo que não existe mais. Ela morde o lábio enquanto ele força os olhos, baixando as sobrancelhas. Ele puxa o ar e abre a boca como se fosse dizer algo, hesita, fecha a boca, retoma o movimento e sentencia:
- Eu senti tua falta.
Ela suspira e baixa os olhos. Ele insiste:
- Eu sinto tua falta. Não quero que tu vá.
- Nós já discutimos isso.
- Eu sei. Mas é que...
- Eu não quero mais discutir. Acabou.
A última palavra deixou-o sem expressão alguma. Ele olha para os lados procurando um lugar fixo para enterrar seus pensamentos e suas esperanças. Ela tenta consertar:
- Eu não queria que fosse assim, mas...
- Tu precisa de ajuda para arrumar as caixas? – ele a interrompe.
- Como?
- As caixas...Precisa de ajuda?
- Não, obrigada, já estou no final.
- Tá bom. Eu vou indo, então.
- Mas... – pausa - Claro, pode ir.
- Oquei. Adeus, então.
- Adeus.
Ele dá meia-volta e sai pela porta sem olhar para trás. Ela espera os passos dele deixarem de ser ouvidos, vai até a porta e fecha-a.
Volta a tentar se distrair com as caixas até que ouve o interfone novamente. Com certa surpresa e esperança, atende.
- Sim!?
- Mudança – uma voz grave e seca grita do outro lado.
Silêncio.
- Só um minuto.
Três homens fortes sobem até o apartamento.
- Com licença, moça.
- É por aqui – ela estende o braço mostrando a direção
Começam pelos eletrodomésticos. Pouco a pouco vão descendo o fogão, a geladeira, o microondas, o computador, a televisão, alguns que ela nem se lembrava mais, como a batedeira que poucas vezes utilizou, no máximo duas ou três vezes nas frustradas tentativas de fazer o bolo de laranja que ele tanto gostava. Heresia dela, o bolo nunca ficaria tão bom quanto o que a mãe dele fazia, mas ela gostava de tentar, e ele gostava de fazer piadas com o resultado das tentativas. Passam para os móveis. Descem a mesa, as quatro cadeiras, duas sempre reservadas para os livros e às roupas e duas sempre separadas para serem usadas em sua utilidade intrínseca: servir como assento. O armário vai sendo desmontado, a cômoda vai inteira, a cama e o colchão voltam a se separar e todos vão sendo levados para dentro do caminhão, sua nova e provisória morada durante algumas horas até chegarem ao seu lugar fixo. Ela fecha as últimas caixas, sempre atenta à passagem dos móveis pela porta demonstrando cuidado aos seus pertences. Mesmo que eles possam ser substituídos por novos e mais modernos na loja mais perto, deve demonstrar zelo, afinal, são seus. Uma não atenção deixaria aqueles brutamontes livres para fazer manobras que certamente levariam a uma pintura descascada, um risco numa madeira, uma tábua do estrado quebrada...Mas se apegava mesmo ao valor sentimental, afinal, cada um dos seus pertences tinha uma história e era personagem de várias outras. Faziam parte de sua vida, mesmo que desprovidos de razão e sentimentos. Depois de todos os móveis pesados, descem as malas de roupas, as caixas com a louça, os cedês, os livros. Tudo já está dentro do caminhão, motor ligado, todos prontos para partir, o motorista buzina. Os movimentos findam-se no interior do apartamento. Ela pára na porta e encara-o pela última vez. Mantém expressão alguma no rosto, apaga a luz e fecha a porta.

As flores descansam no vaso, no chão, no meio da sala vazia.

2 comentários:

muri disse...

eu gostei desse.

Juliane disse...

já leu "para uma avenca partindo" do caio f. ? lembrei na hora :)