quinta-feira, 24 de julho de 2008

O caso do ovo espatifado


O ovo rolou pela pia até cair e se espatifar no chão da cozinha. Juntamente com o som da casca se quebrando ao encontrar o chão, pôde-se ouvir um forte: “merda”. O bife já estava fritando, o óleo respingando por todos os lados, sujando parede, fogão, queimando a mão do nada exímio cozinheiro. Olhou para o desastre no chão, a centímetros de seu pé direito, mas não podia limpá-lo naquele momento, o bife estava fritando e ele não podia deixar de dar-lhe atenção. Para ele, um bife nunca havia demorado tanto. Se gostasse de carne mal-passada ao menos, aí seria menor o tempo de contato do ovo com o chão, mas todos aqueles programas de tevê sobre saúde o convenceram a comer carne bem-passada. O ovo, ainda assim, o incomodava. Não que o chão estivesse limpo, pelo contrário, e até por isso que o incomodava ainda mais. A gema havia se corrompido e se misturado com a clara, escorrendo em volta da casca, abrangendo e consumindo alguns fios de cabelo, poeira e umas migalhas do pão do sanduíche do almoço. O ovo parecia ter vida própria. Mais um pouco e chegaria ao pé do homem que cozinhava. O ovo caminhava pela cozinha e o bife fritava. O gás deve estar acabando, pensou o homem. O fogo estava quase se esvaecendo, o bife não fritava nunca, e o ovo corria, encostara no pé do cozinheiro que logo o ergueu sendo seguido pela clara grudada na sola do chinelo. O homem anojou-se e, ao pôr o pé de volta ao chão, com força, respingou clara e gema por todos os lado, incluindo sua perna descoberta pela bermuda até o joelho. Era o fim, estava quase vomitando o que nem havia em seu estômago. Deixou o bife de lado, pegou o pano que usava para secar a louça e se jogou sobre o ovo espatifado. O ovo molhava o pano se impregnando nele enquanto o homem fazia ânsia. O bife ainda não estava pronto. O cozinheiro estava de joelhos tentando retirar clara e gema do chão. Sentia o óleo quente respingando em seu pescoço, o que o irritava profundamente. Desligou o fogo, mas o bife continuava fritando, e o óleo respingando. O ovo ficara completamente disforme. Já havia mais ovo no pano do que no chão. E o homem esboçava um sorriso de satisfação. Sim, vencera o ovo. Sabia desde o início que o ovo não era páreo para ele. Sentou-se escorado na parede, sorrindo. Esticou o braço e puxou a frigideira até seu colo. Comia o bife quente com as mãos mesmo, olhando com superioridade para o pano da louça amontoado no canto da pia, todo sujo de ovo que não era páreo para ele. “O maior sempre vence, é a lei da natureza, meu caro”, disse o homem com os dedos e a boca lambuzados de bife mal-passado.

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