terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Do lado de dentro


Fujo dos teus olhos. Não, não com o corpo inteiro. Não inicialmente, ao menos. Meus olhos fogem dos teus. Baixo a cabeça e procuro algum ponto fixo e vazio ao chão, ou ao canto da parede, ou em qualquer canto, desde que seja vazio o suficiente para que eu caiba todo. E eu geralmente não caibo. Tento sumir aos poucos, entrando vagarosamente no buraco que eu mesmo crio. Tento correr. Fugir. Me esconder. Mas é inútil. Mesmo quando meus olhos fecham, tuas palavras me atingem. Fortes, rápidas, rasteiras, agudas. Afiadas. Palavras-gancho. Palavras-lâmina. Me puxam e me fatiam. Me cortam em pedaços pequenos o suficiente para por ti serem engolidos após algumas breves mastigadas. Me dilui. Me dilacera. Teus olhos me condenam. Minha perdição. Tua boca me mastiga e engole. Minha purificação. Sou eu quando estou dentro de ti, atravessando tua garganta, teu esôfago, corroendo no teu estômago, entrando no teu sangue. Bata-me no liquidificador e injete-me direto nas veias. Enquanto meus olhos te observam do buraco vazio. Do buraco onde só existem meus olhos e nada mais. O resto de mim é teu. O resto de mim é tu. Dentro de ti sou eu e nada mais. E só quando dentro de ti, fujo dos teus olhos. Teu lado de dentro é meu melhor esconderijo.

Um comentário:

Camila disse...

"...ou em qualquer canto, desde que seja vazio o suficiente para que eu caiba todo."
é cheio, é vazio; é nada, é tudo.
da forma como escreve ao lugar onde te situas. por ser assim, é.