quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Teu cheiro


Teu cheiro mudou.
Não importa o que digam,
teu cheiro mudou.
Não acredito mais na existência
de perfume,
de feromônio.
Tudo mentira.
Invenções do corpo.
Invenções da pele,
da pele sem cheiro
da pele distante
da pele sem minha pele.

Teu cheiro mudou.
Ou então se perdeu.
Se misturou com todos os outros cheiros
que não consigo mais distingüir.
Dele, só sei que era teu.
O cheiro que me falta,
o cheiro que eu queria sentir,
que eu queria prender,
na minha roupa
na minha pele
em qualquer coisa que fosse minha
que seria eu com teu cheiro.

Teu cheiro mudou.
Ou ainda é o mesmo.
Quem sabe
quem tenha mudado seja eu.
Eu e teu cheiro,
que confundo
em perfumes alheios
em roupas alheias
em corpos alheios.
Quem sabe teu cheiro
seja esse que eu sinto
em tudo que é alheio
em tudo que não é meu
ou em tudo que é meu
em tudo que sou eu.

Teu cheiro mudou
mas continua exatamente o mesmo.
Continua teu, continua meu
continua sendo um cheiro só
que é todos os outros
e que é nenhum,
e que é só meu
ainda que tenha mudado.

Um comentário:

Cámilla Sfînt disse...

Adorei o texto, tomei a liberdade de usa-lo em uma das minhas publicações, parabéns.