quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Ano Novo


Faltavam ainda alguns minutos para a meia-noite. Lá fora alguns engraçadinhos esboçavam uma falsa contagem regressiva que era seguida por algumas vaias e risos e frases como: ainda falta pra meia-noite, babaca. À qual o(s) babaca(a) em questão respodia(m): no meu relógio já é ano novo. Seguiam os risos. Deviam estar todos embriagados, assim como o homem que ouvia a tudo de cara fechada e cu aberto, sentado no vaso do banheiro. Mesmo embriagado, ao contrário de muitos (poderia até arriscar: todos) que se encontravam lá fora , repudiava aquelas piadinhas idiotas de contagem regressiva. Repudiava também aquela besteirada toda de pessoas se unirem para comemorar a passagem de um dia para o outro. Isso acontecia a cada vinte e quatros e ninguém saía comemorando feito louco. Por que diabos comemorar daquela vez, se perguntava. Já imaginava a resposta de alguém que por ventura ouvisse seus pensamentos, dizendo que era a passagem para um novo ano. Assim, preparava uma contra-resposta: mas que diferença faz, questionaria. Quem garante que é um novo ano? Quem inventou o calendário? Na certa foi algum capitalista enrustido de séculos passados, prevendo que no século XXI seria essa merda toda de perde e ganha desenfreado onde todos se escravizam por qualquer mínima quantia em dinheiro. Merda essa, aliás, muito mais fedorenta que aquela que saía da sua bunda naquele momento. Malditos capitalistas de merda! Falou baixo, abafado pelas risadas que vinham lá de fora.
Já podia ouvir também os foguetes rompendo o céu nublado e estourando lá em cima. Ouvia também os latidos dos cachorros da vizinhança, apavorados com todo aquele pandemônio desnecessário. Feria-lhe também os ouvidos. Irritava-o. Latiu de raiva. Pela basculante do banheiro também via as luzes coloridas dos fogos de artifício que se desmistificavam ao se confundirem e se ofuscarem no plástico cinza do box. Alguém deve estar perdendo uma mão nesse exato momento, pensou. Continuava cagando a última cagada do ano e também a primeira do próximo. Devia se limpar com a folha de dezembro ou a de janeiro, que arrancara do calendário? Preferia o papel-higiênico.
Lá fora alguém começou a regredir a partir do número vinte. Olhou para o relógio: dessa vez devia ser sério. Quando chegou no dez, as outras vozes se juntaram à primeira formando um coro. Pela forma que ouvia os números, supunha estarem todos sorrindo e aquilo o irritava ainda mais. Quando chegaram ao zero, tapou os ouvidos. Gritos vinham abafados por suas mãos. Agudos, graves, histéricos, formando palavras ou simplesmente gritos, grunhidos, como se fossem um bando de chimpanzés pulando de árvore em árvore.
Começaram as felicitações: saúde, paz, dinheiro, sexo, risadas, sucesso, muita felicidade. Desejavam tudo de bom uns aos outros, como se aquilo fosse se tornar realidade só porque alguém o falava a outra pessoa ao ouvido, abraçando-a. Balela! Bom mesmo é cagar. O melhor desejo de todos e prazer que posso dar a mim mesmo, sem a ajuda de mais ninguém. Seu egoísmo aflorava. Não ia felicitar ninguém. Não queria que se fodessem, ao contrário, desejaria tudo aquilo para todos gritando aos quatro ventos se isso servisse de alguma coisa, mas sabia que aquela porra toda não faria diferença nenhuma. Rasgou um pedaço de papel-higiênico e começou a se limpar.
Alguém batia à porta: é ano novo, cara, vamo comemorá! Tô indo, gritou impaciente. Mas não queria participar daquela algazarra imbecil e sem fundamento daqueles alienados sociais. Não vestia branco ou qualquer cor que simbolizasse porra alguma. Não queria comer carne de porco, lentilha, uva ou qualquer outra comida dessas que trazem dinheiro ou sucesso. Queria muito mais comer uma pizza com bastante queijo e pimenta e beber um copo de cerveja bem gelada. Nada de espumante ou champanhe falsificado. Nenhum objeto para pôr na carteira, no guarda-roupa, debaixo do travesseiro, ou amarrar no pulso ou no calcanhar...Só queria dormir, na verdade. Inventaria uma desculpa qualquer: a barriga doía-lhe muito, tinha que se deitar. Ninguém precisava saber que aquela cagada tinha sido como outra qualquer. Bebeu demais e vomitou, queria ir pra cama. Não, nessa não cairiam.
Puxou a descarga, lavou as mãos e abriu a porta fingindo uma cara de sofrimento e já preparando as palavras certas para a desculpa. Mas eram muitos a sua espera do lado de fora. Quando o viram, vieram correndo para abraçá-lo, gritando seu nome e todas aquelas mesmas palavras ditas antes, desejando-lhe felicidade. Não pôde fazer nada. Aceitou a taça de champanhe falsificado que lhe ofereceram e cantou, abraçado à roda de amigos, a musiquinha do adeus ano velho.
Quando foi dormir, o primeiro sol do novo ano já estava alto, iluminando-lhe a janela do quarto.

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