domingo, 1 de fevereiro de 2009

Um dia frio...


Acordou pela enésima vez e constatou, ainda eram oito e alguma coisa da manhã. A noite tinha sido uma via crucis, não conseguira dormir nada bem. Entre pesadelos e mosquitos, perdera a conta de quantas vezes havia olhado para o relógio. Sabia que não conseguiria mais fechar os olhos e cochilar, nem que fosse por dez minutos mais. Irritado, decidiu levantar-se.
Sentou à beira da cama, cruzou os braços e esfregou as mãos por eles: não percebera que estava tão frio. Aliás, era o auge do verão, fora dormir sem camisa por tal fato e só um lençol e um edredom fino cobriam seu corpo, agora levantava e sentia frio. Algo estava errado, muito errado.
Foi até a janela do quarto e a abriu o mais rápido que pôde. Deparou-se com um cinza de penetrar a alma. Nuvens cobriam completamente o céu, pelo menos é o que presumia com o que via através da espessa neblina que deixava qualquer coisa a mais de dez metros praticamente invisível. Fechou a janela, vestiu um moletom e foi tomar café.
Estava de férias, não tinha compromisso nenhum. Se tivesse, ao menos poderia fazer algo, mesmo com aquele tempo horrível que fazia lá fora. Trabalhava em um escritório, estaria protegido daquele dia que não nascera atrás de paredes de concreto e janelas de vidro. Lógico, também havia proteção em sua casa, mas ali não encontrava nada de útil a fazer. Degustava o café quente em pequenos goles.
Abriu a porta para recolher o jornal. Nenhum vizinho à vista. Aliás, até as casas dos vizinhos estavam escondidas. Deu um assovio e logo foi atendido pelo seu cachorro que ergueu a cabeça e ficou olhando para ele. Sorriu para o cão, pegou o jornal, e entrou. O cachorro acompanhou o dono com os olhos até a sua entrada e o fechar da porta. Ficou mais alguns segundos olhando para a porta fechada. Enterrou a cabeça novamente entre as patas e voltou a dormir. A neblina não o incomodava.
Sentou-se na sala e começou a ler o jornal. O café ainda estava quente, apesar do tempo frio. As mesmas notícias de sempre. E que ironia, já haviam previsto o tempo ruim daquela manhã no dia anterior. Devia ter mais atenção ao ler o jornal. Pensou que devia até ler o horóscopo, vai que estivesse certo também. A princípio, não acreditava nessas coisas de astrologia e meteorologia, para ele, ambas eram inexatas, mas agora uma delas havia acertado, deveriam ter algum crédito. Terminou o café.
Da ida da sala até a pia da cozinha, aproveitou para ligar a televisão. Passou um pouco de água pela xícara e a deixou sobre a imitação de mármore. Sentou-se no sofá e ficou assistindo às notícias que lhe eram entregues por um cara velho, a imagem da experiência e uma mulher mais nova, bonita, mostrando (ou tentando mostrar que) beleza e inteligência podiam sim caminhar juntas. Que ridículo, pensou. Quando percebeu, já olhava através da televisão e as notícias passavam-lhe diretamente pelos ouvidos, indo se perder em um lugar qualquer que nem queria saber onde existia. Foi escovar os dentes.
Voltou com o hálito purificado. Nem parecia ter tomado aquele café há pouco. Desligou a televisão e voltou para o quarto. A casa inteira estava fechada como se fosse uma fortaleza que impedia a neblina de entrar e tomar conta de tudo, o que o faria se perder naquele mar de vapor d’água. Decidiu ler, pegou um grande volume da estante e abriu-o já perto da metade. Dessa vez chegaria ao final, já que tinha o dia inteiro pela frente, e mais nada para fazer. Nada mais pra fazer...
Isso não era bom. Queria ler porque tinha vontade de ler, não porque não tinha nada mais para fazer. Irritou-se. Jogou o livro longe e pôs as mãos na cabeça. Sabia que não conseguiria mais dormir, por mais cansado que estivesse. Não tinha nada para fazer naquele dia de neblina. Maldita neblina. Foi abrir a janela do quarto novamente.
A imagem vista antes era a mesma. Aliás, poder-se-ia dizer que a imagem não vista antes era a mesma. Afinal, tudo a mais de dez metros continuava imperceptível. As copas das árvores nunca tinham ficado tão distantes. Ouvia o canto melancólico dos pássaros, talvez perdidos naquela imensa nuvem que descera do céu para cegar quem habitasse a superfície terrestre, como um castigo divino. Eram cantos curtos, sem força, como se já esgotados de tentar, em vão, achar algum caminho que os levassem à salvação. Deixou a janela aberta.
Recolheu o livro do chão e se dirigiu à cama, novamente. Abriu algumas páginas à frente. Achou que não teria problema em perder alguns diálogos. A neblina já começava a entrar pela janela, aos poucos, como se receasse entrar diretamente no quarto. Mas ele havia deixado a janela aberta, era um convite que fazia para, agora, sua única companhia. Entre! Fique à vontade! Podia ler-se em seus olhos. E a neblina vinha, enquanto ele folheava as páginas do livro sem olhar diretamente para elas. Cada vez ia ficando mais cego. O rádio já havia desaparecido, assim como a pilha de livros no canto da parede. O armário ia desaparecendo aos poucos, uma porta por vez. Quando percebeu o pé da cama já havia sucumbido e seus próprios pés eram tocados pela nuvem cinza. Era questão de tempo, e pouco tempo. Sorriu e voltou ao livro. Logo, logo, tudo seria neblina.

Um comentário:

gabrielmito disse...

Muito legal o teu texto, cara... se é que bixo pode comentar, né? Que tal fazer a televisão ficar fora do ar, com aqueles chuviscos que parecem neblina? Dá um texto massa, tb. Fica a idéia, hehehe.

Valeu