quinta-feira, 16 de abril de 2009

Tarde na capela


Pediu licença e alguns minutos sozinha. Todos aquiesceram e saíram da sala. Ela se levantou vagarosa, puxou a cadeira mais para perto do caixão e se acomodou. Repousou a mão direita sobre as mãos entrelaçadas do falecido, enquanto acariciava-lhe os cabelos ralos com a mão esquerda.

Quem olhasse de fora veria confundirem-se as peles enrugadas do casal, quem sabe pela última vez.
Olhava o companheiro de tantos anos enclausurado pelas paredes de madeira, preso para sempre em um único estado. Por sua vez, apertava os olhos, sofridos, angustiados. Formou um leve sorriso nos lábios, sereno, buscando conformação. Buscava também palavras para aquele momento. Não que a fossem ouvir, ninguém mais a ouviria a não ser ela mesma, mas aquilo a confortaria: a última conversa, ainda que não houvesse reciprocidade para suas palavras.
Quem olhasse de fora veria a mulher de lábios finos e enrugados movendo-os, criando palavras para seus próprios ouvidos e de ninguém mais.
Levantou novamente, dirigiu-se à mesa posta ao fundo da sala e serviu-se um copo d’água. Virou-se de frente ao altar e ficou observando o homenzinho pregado a uma cruz que parecia olhar tristemente em direção ao caixão. Ela entendia a sua dor. Deixou um resto de água no copo e voltou à sua cadeira. Não sentou, porém. Ficou de pé ao lado do caixão, ora olhando seu amado, ora olhando o homenzinho da cruz. “Você também acha que ele está com sede?”, e despejou vagarosamente o resto de água sobre a boca do falecido, tomando o cuidado de usar um lenço para não molhar-lhe o terno.
Quem olhasse de fora veria uma mulher sorridente dando água a um homem em um caixão sob a complacência de um homenzinho esculpido em madeira.
Já havia passado quinze minutos, a qualquer momento as pessoas podiam irromper a sala, acompanhadas do padre, para realizarem todos os rituais finais e levarem embora, de vez, seu tão amado marido. Esse pensamento a fez estremecer por dentro. Ainda de pé, acariciou-lhe mais uma vez os cabelos e beijou-lhe a face. Abaixou-se e descalçou os sapatos. Aquele sorriso de lábios voltou a seu rosto, tomando o lugar dos olhos marejados. Subiu à cadeira e deitou cuidadosamente sobre o marido, dentro do caixão.
Quem olhasse de fora poderia dizer que os corpos flutuavam abraçados, se evaporando lentamente, unidos como a vida e o costume o fizeram.

2 comentários:

Rick Basso disse...

achei a tarde dela enfadonha...

binlucas disse...

foda cara, um dos mais fodas que tu fez.