sábado, 13 de junho de 2009

Seu Romero


Acordou já se sentando na beira da cama. Acostumou os olhos com a luz e, ainda sentado, calçou os chinelos de pano. O relógio marcava 6:30 da manhã. Era sua rotina: dormia cedo, lá pelas nove da noite, e acordava cedo. Levantou-se e foi ao banheiro urinar. Lavou as mãos, olhou-se no espelho, o cabelo e o bigode grisalhos despenteados, lavou o rosto. Droga, disse ao molhar o a camiseta do pijama azul claro que ganhara de sua filha no Natal passado. Era verão, o pijama era de mangas longas, calça, mas era sua filha que o tinha dado. Fazia questão de usá-lo, mesmo que passasse calor. E ele passava. Secou o rosto e caminhou em direção à cozinha. Olhou a mesa vazia, apenas o guardanapo de tecido com o cesto de frutas de plástico no centro da mesa. Parou e ficou alguns segundos lembrando de quando acordava e encontrava o café pronto sobre a mesa, o bolo de fubá, o pão fresquinho. Ah, saudade da minha velha, suspirou. Empurrou o cesto artificial mais para o canto, pegou a toalha e cobriu metade da mesa. Xícara, colher, açúcar, o pão de ontem, o bolo de fubá da padaria da esquina, mofado. Dois dias e já mofou? Indignado, resmungou qualquer coisa sobre os bolos durarem mais quando era criança. Ou será que é porque com mais pessoas em casa comia-se mais rápido? Não, em seu tempo a qualidade dos bolos era melhor e pronto. Aliás, não só dos bolos, de tudo. Até as frutas amadurecem mais cedo hoje em dia, e não tem a mesma cor e o mesmo sabor. A fruta roubada do pé do vizinho sim que tinha um gosto bom. Ria enquanto despejava a água quase fervente no filtro com café, no velho bule de metal. Sempre roubávamos as laranjas do falecido Seu Martins. Sai daqui seus moleques, antes que eu solte o Faísca. Que medo que nós tínhamos do Faísca, aquele pastor era brabo que só ele. Era só o Seu Martins gritar a temida frase e saíamos correndo desesperados.
O café já estava passado. Deixou as lembranças de lado, serviu o café na xícara, ligou o rádio, sentou-se e passou a desmanchar o pão em pequenos pedaços. Como não havia mais bolo de fubá, o que tinha estava terminando de mofar já dentro do lixeiro, se contentou em despedaçar o pão e soltar os pedaços dentro da xícara de café preto. Estava feito o seu desjejum. Olhou novamente a mesa, as migalhas do pão velho sobre a toalha. Molhou a ponta do dedo com a língua e começou a trazer algumas até sua boca. Baixou os olhos, se levantou, recolheu a toalha e a sacudiu dentro do tanque de lavar roupa. As migalhas desceram pelo ralo junto com a água da torneira. Viu um pássaro sobre o poste de luz da rua, pensou: será que ele me viu fazer tamanha crueldade? As migalhas que ele acabara de ir água abaixo antigamente era jogada no quintal de casa. Ele se sentava na varanda e observava os pássaros que vinham recolher aqueles minúsculos pedaços de pão com o bico. Agora, era o pássaro que, do alto do poste de luz, observava o velho homem no terceiro andar de um retângulo de concreto jogando as migalhas que ficaram pelo ralo do tanque.
O velho terminou de tirar a mesa, lavou a louça, deixou-a no escorredor e voltou para o quarto para trocar de roupa. Puxou uma bermuda surrada que tinha já guardada com o cinto posto, e uma camiseta leve. No rádio haviam dito que faria um dia quente, e ele sabia que ali, em volta de tanto concreto, o calor era bem maior que em volta das árvores. Calçou a sandália, pôs o boné na cabeça e saiu, como fazia todos os dias. O relógio já chegava perto das oito. Ao descer as escadas, se encontrou com Daniele subindo. Daniele tinha uns oito anos, era filha do casal do apartamento ao lado do dele, era muito educada, sempre o cumprimentava. Teve boa educação dos pais, com certeza, pensava. Oi, seu Romero. Oi, Daniele, tudo bem!? Tudo, seu Romero. E seguiu subindo as escadas tentando pular os degraus de dois em dois. Oi, seu Romero. Lembrou das palavras da criança, e de quando seu pai contava a história do seu nome. Nós estávamos na romaria de Nossa Senhora, filho, tua mãe tava de barriga fazia uns bons meses. Nós fomos descalços pra pagar a promessa que fizemos. Tu sabe que tua mãe não podia engravidar, né? Pois é, aí o pai e a mãe fizeram uma promessa que se a mãe engravidasse, nós iríamos ao santuário de Nossa Senhora a pé e descalços. Como ela engravidou de ti, nós fomos. E no meio do caminho, com todas aquelas pessoas passando, tua mãe começou a passar mal. Ela me disse, que ia parir ali mesmo. E foi exatamente o que aconteceu. Várias pessoas nos ajudaram e tu nasceu, no meio da romaria. Por isso que te batizamos Romero. Era uma boa história, mas ele sabia que nada daquilo era verdade. Seu pai fantasiara uma história bonita para lhe contar, mas o verdadeiro motivo era um cantor de bolero que o pai adorava: Romero Paolo. Tudo bem, pai. Ele também gostava mais de contar essa história pras pessoas.
Já lá embaixo, encontrou-se com o porteiro. Bom dia, seu Romero. Bom dia, José. Como tá o Pedrinho? Tá bem, seu Romero, começa as aulas daqui uns dias. Esse guri vai ser bom, José. Deus te ouça, seu Romero. Se despediu com um sorriso e saiu portão afora. Na calçada, deparou-se com o mundo real novamente. O mundo de metal e concreto. Carros por todos os lados, passando por ruas asfaltadas, cercadas por prédios enormes de concreto. Suspirou. Dentro de seus olhos se via a nostalgia do mundo de grama e madeira que conhecia quando jovem. Naquela época se preocupava em não pisar no rastro fisiológico que os cavalos deixavam nas estradinhas de chão batido que levavam de uma casinha de madeira à outra. Sai caminhando pela calçada, segurando a respiração de quando em quando. O rastro de monóxido de carbono deixado pelos carros irrita seu nariz e garganta. Saudade dos cavalos!
Segue rua abaixo, até chegar ao ponto de táxi. Os dois ou três taxistas ali parados mal o vêem e já gritam: ô, seu Romero. Senta aí dar esse dedinho de prosa. Seu Romero não pensa duas vezes, sorri e senta, começando a conversa com os taxistas. Alguns saem para atender chamadas, outros chegam vindo de outras. E seu Romero é único, é fiel, é singular. É o centro das atenções e isso o deixa feliz. Gosta de contar os causos de quando jovem e ver a cara dos taxistas que também arriscam alguns de vez em quando. Seu Romero fica lá, sem ver o tempo passar. Almoça com os taxistas, no restaurante ali em frente. Seis reais o bifê livre com suco. Mas seu Romero sempre substitui o suco por um copo de vinho tinto. Voltam ao ponto, toma chimarrão, conversam sobre esportes, sobre política, sobre futilidades gerais. Entre fatos novos e acontecimentos passados, ficam horas conversando.
Seu Romero se despede. A velhice não vem sozinha, explica, vou para casa descansar um pouco. Despedem-se com seu Romero dizendo: qualquer hora passo aqui de novo. Os taxistas sorriem e aceitam as palavras do homem, sabendo que o “qualquer hora” já está marcado para a próxima manhã. Seu Romero acena e segue rua acima, voltando para seu apartamento. Vê um garoto passando mascando um chiclete com um boné enterrado na cabeça e dois círculos enormes de plástico nas orelhas. Deles saem um som que até mesmo quem passa a metros de distância consegue ouvir. Seu Romero acha aquilo estranho. É o barulho contra o barulho, um querendo ser mais alto que o outro. É o aparelho de som querendo vencer os carros, as buzinas, as pessoas gritando nomes, os cachorros latindo, os vizinhos brigando. Aquilo tudo é estranho para seu Romero. Acelera o passo para chegar rápido em casa. Abre o portão, José lhe cumprimenta: já de volta, seu Romero? Sim, José, lá fora tá uma balbúrdia. É, seu Romero, hoje em dia é assim. Sim, o homem concorda com ar de tristeza. Sobe as escadas vagarosamente, se apoiando no corrimão. Não encontra mais ninguém pelo caminho. Destranca a porta e entra. Suspira aliviado. O relógio marca quatro horas, mais cinco até dormir. A solidão entrou junto com seu Romero pela porta. Vai até a cozinha, liga o rádio e se senta à mesa. Fica ali, ouvindo o mundo que acontece do lado de fora do seu apartamento, sem ter vontade de ir lá fora para ver tudo aquilo de perto.
Às nove da noite, vai dormir.

Um comentário:

Bruno Oyarzabal disse...

A melancolia do fim da vida é um tema recorrente nos textos polonianos. Mais que a forma dos textos e outros temas. É essa inconformidade do antigo no novo, da solidão encanecida pelas vicissitudes da vida. Da morte. Mas por quê? Gostaria de ver novos textos do autor publicados, para descobrir a resposta a esse contexto sufocante.