domingo, 9 de agosto de 2009

Direito do consumidor


Vinha a passos calmos, caminhando com as mãos no bolso. O outro, ainda que de costas, sentiu que alguém se aproximava. Virou-se e viu um homem bem vestido já interrompendo seu caminhar e parando atrás dele. Voltou todo o corpo ao homem parado e abriu um sorriso.

- Boa noite, patrão.
O homem consentiu com a cabeça.
- Que que vai ser?
- De que que tem?
- Carne, coraçãozinho e frango.
- Um de carne.
- Um?
- Isso.
- É pra já.
Voltou-se novamente ao protótipo de churrasqueira feito de latão e puxou um dos vários espetinhos amontoados no canto e retirou o papel laminado.
- Farofa, patrão?
- E pimenta.
- A pimentinha, vou ficar devendo, patrão.
- Tudo bem.
- Então, tá na mão.
Esticou o braço, oferecendo o espetinho de carne com farofa. O homem puxou a carteira.
- Quanto?
- É dois pila.
Puxou uma nota de dez e entregou ao outro, aproveitando para pegar o alimento com a mesma mão.
- Pô, patrão, tô sem troco.
O homem já havia comido um dos pedaços.
- Não tem troco? – voou um pouco de farofa da boca à calçada.
- Me quebraram com uma nota de cinquenta hoje, patrão. Vou ficar devendo.
Já no segundo pedaço, o homem pensou por um segundo.
- Então me vê o resto em espetinho.
- Mais quatro, patrão?
- Isso.
Ainda que decepcionado, o outro consentiu.
- De que que vai ser, patrão? – podia-se perceber certa tristeza em sua voz.
- Tanto faz.
O outro recolheu mais quatro dos espetinhos do canto e esticou o braço entregando-os ao homem.
- Sem o papel.
- Sem?
- É.
O outro tirou o papel laminado e, mais uma vez, ofereceu-os ao homem. Este, que já havia acabado de comer seu primeiro espetinho, pegou os outros quatro com uma mão só e lançou-os o mais longe possível à rua. Surpreso, o outro gritou.
- Que é isso, patrão? Pra que fazer isso?
Calmamente, o homem pegou um guardanapo de papel, limpou as mãos engorduradas e a boca enfarinhada e, só então, sentenciou:
- Direito do consumidor.

4 comentários:

Andrei disse...

muito bom!

Anna Faedrich disse...

Nico,

parabéns pelo blog!

Pela escrita!

Gostei mesmo.

Beijo!

Nícolas Poloni disse...

Valeu, Andrei. Valeu, Anninha. Fico feliz que tenham gostado.

E fiquem à vontade para voltar sempre. =)

Bruno Oyarzabal disse...

Este é, de fato, muito bom.