sábado, 5 de setembro de 2009

O telefonema


Andava de um lado ao outro da sala. De cabeça baixa e roendo a unha do dedão da mão direita, ia de uma parede à outra. As tábuas do assoalho já pareciam ter os sapatos do homem desenhados de forma rítmica. O homem caminhava como se pudesse repassar ao ar toda sua apreensão. De vez em quando mudava o trajeto da metade do caminho e corria ao telefone em cima de uma mesinha num dos cantos da sala quadrada. Tirava-o do gancho e levava ao ouvido: sim, estava funcionando. O movimento se repetia quase que a cada minuto como se, em questão de segundos, o aparelho pudesse ficar mudo. “E se ligaram justamente quando tirei do gancho?”, pensou. “Não, não haveria tanta coincidência assim”. E continuava andando.

No outro canto da sala, sentado no chão, outro homem observava-o. Este, por sua vez, cessava o ir e vir algumas vezes e ficava parado, olhando o homem no chão como se quisesse dizer algo e não conseguisse. De onde estava, o homem do canto até conseguia ver a boca do outro se abrindo, ao mesmo tempo em que ele ajeitava o corpo como se finalmente fosse vomitar todas as palavras presas à sua garganta. Aí o homem cerrava novamente a boca, recuava e voltava a caminhar. Todas as palavras perdiam-se antes de chegar à língua

Pela décima vez em quinze minutos, testava se o telefone estava funcionando ou não. Pensou em ligar, mas não, tinham lhe deixado bem claro que não deveria ligar, só esperar. E que castigo era aquele. Nada era pior que a angústia da espera. Chegava a desejar que o telefone tocasse de qualquer forma, fosse para o bem, fosse para o mal, não interessava, apenas queria que tocasse. Já não agüentava mais. “Esperar, esperar, esperar. Odeio esperar”, disse em voz alta e logo olhou para o homem do canto da sala como se afirmar: não, não sou louco.

Iniciou novamente seu ir e vir até que mudou a direção, buscou uma cadeira, levou-a para o lado do telefone e sentou. Ficou ali, olhando para o aparelho como se pudesse fazê-lo tocar só com seu pensamento, ou melhor, só com o seu desejo. O homem no canto da sala continuava quieto. Assistia a tudo sem dizer nada, sem mover um músculo. Parecia já conformado com a espera. Não havia mais nada para fazer. Depois que o outro homem sentou-se, ele parou de observá-lo e repousou os olhos na parede que ficava em frente, no exato ponto onde teto e parede se encontravam e ficou acompanhando os movimentos da aranha que preparava seu almoço.

Já havia reparado naquela teia alguns dias antes, era seu passatempo preferido. A aranha já havia sentido o movimento da mosca que ficara presa na sua teia e foi calmamente ao encontro dela. “Como são diferentes esses dois”, pensou, comparando a aranha e o homem que só há pouco tinha se acomodado na cadeira, “uma espera tranqüilamente até que algum inseto fique preso e possa ser seu alimento, enquanto o outro não consegue ficar parado meia-hora esperando um telefonema. Qual dos dois será o mais inteligente?”. A iluminação precária não o deixava observar exatamente o que acontecia no canto a sua frente, mas sabia que naquele momento o aracnídeo devia estar injetando seu veneno na pequena mosca. Alguns segundos depois já a enrolava com sua teia, movendo agilmente duas de suas patas, formando um casulo. Não demoraria muito e começaria a sugar todo o fluido daquele pobre inseto. No fundo, o homem que observava a cena se sentia exatamente como aquela mosca.

Ainda ao lado do telefone o outro continuava esperando. Virou a cabeça em direção ao homem do canto e acompanhou seus olhos até a teia de aranha que este observava. Não deu bola. Voltou a fitar novamente o telefone e disse em voz alta, sem olhar para o outro no canto:

- Sabe – fez uma pausa – estou esperando um telefonema muito importante.

Não obteve resposta.

- Na verdade, nós estamos esperando um telefonema muito importante. Tu deveria tá ansioso também.

O outro deu de ombros.

Ficaram mais de um minuto calados, até que continuou.

- Eu, por mim, não tava aqui. Mas sabe, tem coisas que a gente não pode escolher, não tem essa liberdade. Tem coisas que a gente simplesmente tem que fazer. Tu me entende!?

Terminou a frase e olhou para o homem no canto e encontrou-o virado para ele; poderia dizer que o metralhava com os olhos.

- É verdade, sim. Pode até parecer que não, mas é a mais pura verdade. Ou tu acha que eu não preferia tá em casa brincando com meu filho agora!? Ah, não te falei, né!? Tenho um guri de nove anos. Quer ser jogador de futebol, vê se pode! – sorriu.

O outro voltou a olhar a aranha.

- Eu já disse pra ele que é difícil, que não se chega a profissional de uma hora pra outra. Mas ele só tem nove anos, pombas, claro que não entende que é difícil. E pra quê que eu vou cortar os sonhos do guri tão cedo!? Não, deixa ele sonhar mais um pouco. Nessa idade a gente pode sonhar, pode achar que a vida é bonita mesmo, como a gente vê nos gibis.

Ficaram mais um minuto em silêncio. O homem do canto já abandonara a aranha e agora olhava fixo para o chão, com a cabeça encostada na parede. O outro retomou o assunto:

- Eu prometi pôr ele numa escolhinha de futebol, sabe!? Eu disse: “espera o pai arranjar um emprego que eu vou te pôr na melhor escolhinha de futebol dessa cidade”. Eu lembro que ele sorriu e me abraçou. Adorou a idéia. Mas tá difícil arranjar esse maldito emprego.

O homem silenciou e tirou mais uma vez o telefone do gancho para ter certeza que ainda estava funcionando. Olhou para o homem imóvel no canto da sala. Ele ignorava o falante de modo soberbo, desprezando cada palavra proferida pelo outro. Isso irritava o homem ao telefone.

- Tu não entende, né?

O homem ao canto da sala virou a cabeça vagarosamente em direção ao outro, olhou-o por alguns segundos e então virou novamente a cabeça até encostá-la na parede. Foi o estopim.

- Filho-da-puta!

Levantou subitamente da cadeira deu três passos rápidos e agarrou o homem ao chão pelo colarinho. Deu-lhe três tapas fortes no rosto enquanto gritava.

- Tu não entende, filho-da-puta! Tu nunca vai entender!

Largou-o empurrando ao chão e voltou à cadeira, bufando, completamente vermelho de raiva. No canto da sala o homem tentava tossir e percebia-se um fio de sangue saindo de sua sobrancelha. Ficaram no mais absoluto silêncio.


*


Estava com as mãos na cabeça e com os cotovelos escorados sobre a mesa quando o telefone finalmente tocou. Ergueu a cabeça, ficou olhando o aparelho até o terceiro toque, quando finalmente o atendeu.

- Alô!

- Tá feito. Tô com o dinheiro. Pode dar cabo.

- Mas eu pensei que...

- Não pensou nada. Dá cabo e pronto! Entendeu?

- Sim, entendi.

Desligou. A conversa não durou mais de alguns segundos. Ele voltou a olhar para o homem caído, escorado na parede que, por sua vez, já havia entendido tudo. Tentava inutilmente passar as mãos pelos buracos das algemas e resmungava palavras abafadas pela mordaça. O homem ao lado do telefone se levantou, se aproximou do outro, pegou o revólver da cintura e mirou na cabeça daquele que havia mudado sua feição do desprezo ao pavor. As palavras lhe saíram calmas e automaticamente.

- Tem coisas que a gente simplesmente tem que fazer.

Um comentário:

Thiago Nestor disse...

Muito bom cara, tem um clima muito angustiante... fiquei esperando alguma coisa imbecil no final... me surpreendeu...