domingo, 17 de janeiro de 2010

Desafinado


Pegou-o no colo, preparou-se, tocou o Sol maior. Achou estranho. Tocou o Dó maior. Continuava estranho. Ré maior, para não haver dúvida. Não houve: o violão estava desafinado. Suspirou fundo, irritado, e pôs mãos e ouvidos à obra. Sexta corda na quinta casa: Lá, quinta corda solta: Lá. Vai afinando o violão e as cordas vão tomando tom, vão tomando som, encaixando-se, completando uma às outras. Pára quando tenta afinar o Si. Corda difícil, mas obtém sucesso, após certa insistência. Termina com o Mi prima. Pronto! – sorri satisfeito, mas logo olha para o relógio da parede: quinze horas. Não pode perder a hora. Culpa-se por ter se distraído, mas volta ao violão.
Refaz o Sol maior com os dedos e toca – Perfeito! Vai até sua caixa de cedês, retira o do Barão Vermelho, ainda com Cazuza nos vocais. Põe pra tocar Pro dia nascer feliz. O som começa, ele acompanha: Lá maior. Se perde no tempo, volta a música. Lá maior – Qual é a segunda nota mesmo? Volta. Lá maior, segunda nota: Ré maior, tudo certo até aqui. Erra a batida. Ele bufa, pausa o cedê, larga o violão sobre a cama e vai até a cozinha pegar uma cerveja. Abre a long neck e dá o primeiro gole escorado na porta da geladeira, olhos fixos na parede enquanto faz bico e leva o gargalo até a boca, outro gole. Joga a tampinha fora e procura o relógio do microondas: quinze e dezessete. Tem mais uma meia-hora ainda.
Volta para o quarto com a long neck em punho. Larga-a sobre o criado-mudo, pega o violão novamente. Decide ir direto para o refrão: treina antes de pôr o cedê rodar novamente. Fá maior: Pro dia nascer feliz, pro dia nascer feliz; o mundo inteiro acordar e a gente dormir. Decorou a seqüência, roda o cedê. Toca o primeiro verso, mas não canta junto. Faz a ponte e arrisca um backing vocal, no segundo refrão se pega cantando. Continua tocando, mas é interrompido pelo toque do telefone. Larga o violão, pára o cedê, corre pro telefone enquanto olha o relógio da parede: quinze e quarenta, ele ainda tem vinte minutos, quem será?
- Alô!?
- Oi.
- Ah, eu já tô indo. Daqui uns quinze minutos eu to aí.
- Não, não precisa mais, eu já fiz tudo.
- Como assim? Nós combinamos de ir juntos.
- Eu sei, mas eu preferi vir sozinha.
- Hmm. E como foi?
- Foi horrível.
- Imaginei. Quer vir aqui pra casa? Quer que eu vá pra tua?
- Não, eu quero ficar sozinha.
- Tá. Amanhã a gente se vê então. E fica tranqüila que eu já to providenciando a metade do dinheiro.
- Esquece isso. Eu também quero esquecer. Aliás, eu quero esquecer tudo. Não me procura mais.
- O quê? Como assim? Aconteceu alguma coisa?
- Claro que aconteceu, né? Eu fiz. Eu fiz essa coisa horrível.
- Eu sei, eu sei. É difícil mesmo, mas nós conversamos sobre isso. Tu sabe que foi o melhor. Não teríamos como lidar com isso nem financeiramente nem psicologicamente.
- Ah, eu não sei o que pensar, nem quero pensar em alguma coisa agora. Só quero dormir, dormir e não acordar mais se possível.
- Calma.
- Não me pede calma!
- Tá bom. A gente se fala depois, então.
- Não me procura. Se eu estiver bem, eu te ligo.
- Tá bom. Até mais.
Ela desliga do outro lado.
Ele põe o telefone no gancho e suspira aliviado. Não que esteja feliz com tudo, mas sabe que foi o melhor para todos. Volta para o quarto, pega o violão e dá play novamente. Pode-se ouvir em alto em bom som: Estamos, meu bem, por um triz. Pro dia nascer feliz. Pro dia nascer feliz. O mundo inteiro acordar e a gente dormir, dormir.
Ele não toca mais. Fica sentado na cama, com o violão no colo, ouvindo a música e olhando fixo para o chão com a cabeça envolta em pensamentos...Nadando contra a corrente.

Um comentário:

Camila A. disse...

gosto de suspense.
algo não revelado.