sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Sem título


Sorriu e se olhou no espelho. A bem da verdade, não sorria realmente. Escancarava os lábios para poder analisar o estado em que se encontravam seus dentes. Estes, cerrados, já apresentavam algumas ausências. O sangue misturado à saliva cobria todo o interior da boca. Os dentes tomavam uma tonalidade rósea enquanto a mistura dos dois líquidos criava um novo, espesso, que escorregava pela língua querendo irromper boca afora. Cuspiu na pia a mistura de sangue e saliva que começava a nauseá-lo e tomou na mão a caneca com água limpa. Pôs um bom gole à boca, bochechou e cuspiu novamente. Abriu a torneira para limpar o excesso de sangue na pia. A água saía escassa e avermelhada, definhando do cano enferrujado à sua frente. Não sabia bem se podia chamar aquilo de água. Imitou o sorriso novamente em frente ao espelho. Faltavam ainda dois dentes. Pegou o alicate sobre a pia e posicionou-o sobre o segundo incisivo esquerdo. Um pedaço de pano cobria o ferro do alicate de forma a não estragar o esmalte dos dentes. A boa aparência era imprescindível. O pano branco já estava totalmente manchado de sangue. Apertou o alicate o suficiente para remover o dente sem o perigo de quebrá-lo. Com movimentos iniciais leves moveu o dente para frente e para trás enquanto o puxava vagarosamente para baixo. O dente foi se soltando enquanto o sangue escorria quente pela boca e o queixo do homem. Finalmente, num último movimento, arrancou-o. Segurou o grito de dor. Sua boca latejava e a gengiva mais parecia um campo recém lavrado. Encarou o dente seguro pelo alicate por alguns segundos e então o levou para baixo da torneira. Tirou o excesso de sangue e repousou-o no pote ao lado da pia, sobre uma cadeira velha. Pôs outro grande gole de água à boca, bochechou e cuspiu. Olhou-se no espelho. O suor nascia em sua testa e escorria pela face. Ainda faltava um. Respirava com dificuldade, tentando suportar a dor. Haviam lhe oferecido um bom dinheiro pelos seis dentes superiores frontais. Riu da ironia de poder finalmente comprar comida de verdade mas, para isso, ter que eliminar o instrumento que usaria para dilacerá-la. Cuspiu mais uma vez o sangue e a saliva que se misturavam. De tão espessos, faziam um comprido cordão até quase encostar à louça da pia e, só então, em virtude do próprio peso, o cordão se desprendia do lábio e caía, escorrendo para o ralo. Encarou-se no espelho com a boca semiaberta, respirando fundo diante da náusea que lhe incomodava. Abriu a boca e firmou o alicate sobre o canino esquerdo.

5 comentários:

Andrei disse...

que imaginação!

Camila A. disse...

não sei se é a dor que me comove ou o ritmo minuncioso dela. corre as veias e depois sinto o mesmo.

Andrei disse...

é a tua chance
http://www.pop.com.br/popnews/noticias/tecnologia/328491-ACADEMIA+BRASILEIRA+DE+LETRAS+ESCOLHE+CONTOS+NO+TWITTER.html

Andrei disse...

ficou incompleto...
+ESCOLHE+CONTOS+NO+TWITTER.html

Moisés Westphalen disse...

Eu gosto.