quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sol de Fevereiro


Entrei no carro estacionado e pus a música a todo volume. The Chordettes cantavam: lollipop lollipop, oh lolli lolli lolli, lollipop lollipop, oh lolli lolli lolli lollipop. Eu sabia que ela adorava essa música. Vi seu sorriso abrindo e engolindo toda a beleza daquele céu ensolarado de fevereiro.


Ela estava deitada de costas no capô, usava um vestido branco, tiara branca para combinar. Eu sabia que a tiara branca estava fora de moda, mas ela ficava tão linda. Ela cantava e dançava. Erguia o braço direito e virava o rosto para o lado esquerdo, olhos cerrados, dentes à mostra, fazia o mesmo para o outro lado, isso sucessivamente. Ela ficava tão mais linda feliz.

Eu a conhecia há seis anos e alguns meses. Ah, como foi difícil conquistá-la. Meus amigos todos me diziam que eu não conseguiria, mas torciam por mim, eu sei, e agora estou aqui. Quem passa e me vê com ela sente inveja, com toda a certeza. Desculpem, rapazes, mas ela é só minha! Mas como disse antes, admito que não foi fácil. Sempre a enchi de presentes, coisa que no início ela nem ligava e só depois começou a aceitá-los bem, até agradecendo a cada novo embrulho que rasgava. Lembro que dei para ela cedês das trilhas sonoras de My Girl e Forrest Gump, nossos filmes preferidos. Praticamente a obriguei a gostar de música antiga e deu certo, ainda bem. Aprendi a cozinhar por e para ela, porque se dependesse só de mim, era comida congelada ou tele-entrega, mas ela sempre fez valer a pena as horas na frente do fogão, as queimaduras, a pia transbordando de louça suja. Tudo por ela.

Mais difícil que a conquistar, foi convencer meus pais da idéia de nos verem juntos. Sei que sempre gostaram dela, mas relutavam contra morarmos em outro lugar que não debaixo do mesmo teto que o deles. Tive que os ouvir dizendo por um bom tempo: Você é muito jovem, meu filho. Como farão para se sustentar? E eu tendo que repetir firmemente para que entendessem que eu não estava lá para brincadeira: Confia em mim, pai. Arrumei um emprego que renderá grana suficiente para manter a mim e a ela. E ela me ajudará no que for possível. Até que se convenceram da idéia e não mais se opuseram. Saí de casa, finalmente, com ela, claro.

Quanto a mim, o que posso dizer? Foi paixão à primeira vista. Quando a vi, linda, aquele par de olhos castanhos brilhantes olhando diretamente, para mim, não tive dúvida: a quis para mim. Desde nosso primeiro ano juntos eu a trago aqui, praticamente todos os domingos. É o nosso parque. É a nossa música. É a nossa vida. Juntos daqui pra frente, até o fim. E prometo que vou amá-la sempre, cada dia mais. Meu maior presente. A mulher mais linda que já tive em meus braços.

A música está quase no final, se a conheço bem, ela vai querer ouvir novamente.

- Paaaaaai! Põe de novo a música!

Eu tinha certeza. Ela continua sorrindo. O sol vai diminuindo, diminuindo, desaparecendo no seu sorriso. Eu só a observo, não ousaria dizer nem fazer nada que atrapalhasse essa brincadeira da natureza.

Um comentário:

Rick Basso disse...

um namorado que repara na tiara da namorada, não sei fico assim...rs homens modernos antenados na modinha...