sábado, 27 de março de 2010

Partirei ao amanhecer


Morreu em uma quinta-feira. Um dia depois, era velado na sala de sua casa.

A família entendeu que, mais do que qualquer ritual religioso em qualquer igreja pensada e construída pelo homem, a sala de sua própria casa era o local que ele se sentiria mais confortável, fosse com os móveis, conhecidos de longa data, fosse com a atmosfera do lar.

Não se podia dizer que a sala era a maior e mais confortável aos tristes familiares e amigos que se apertavam entre cadeiras e paredes. Porém, parecia de bom tamanho. Ao fundo, o caixão de madeira deitava na horizontal, junto à parede, local onde podia ser observado de qualquer outro ponto do recinto. Os familiares mais próximos sentaram-se à frente. Entre as duas fileiras de cadeiras, um corredor se formava, cortando o centro da sala, por onde os amigos e familiares mais distantes apenas passavam, encaravam o corpo e davam suas condolências aos pais. Às vezes, usavam palavras certeiras, próprias para a ocasião, mas que nada diziam àqueles que choravam a partida. Alguns preferiam simplesmente olhá-los e baixar a cabeça em sinal de tristeza.

É verdade, porém, que, ainda que todos pudessem ver o caixão e o homem ali enclausurado no momento que quisessem, não perceberam quando, como se fosse um milagre, ele apareceu às costas de todos, adentrando também à sala. Com uma grande gargalhada e com os braços abertos, berrou a toda força:
“Não entendo suas caras. Que tristeza é essa? Aqui estou, vivo como qualquer um de vocês. Vamos comemorar”.

O susto inicial logo deu lugar a abraços, sorrisos e choros, agora, de alegria. Por mais difícil que fosse acreditar, sua morte parecia ter sido apenas um pesadelo, uma ilusão coletiva, vivida por todos que ali estavam. Parentes e amigos saíam de casa e voltavam carregados de bebidas e cigarros e charutos. Todos riam, bebiam, fumavam, abraçavam-se, cantavam canções velhas, gritavam para serem ouvidos a todo custo, batiam-no aos ombros e confessavam-lhe que ali ficariam até o amanhecer sem que ninguém dormisse. Prometiam-lhe também que aquela era a primeira de muitas festas. Celebrariam a vida, não só a dele, que havia recebido uma segunda chance, mas a de todos ali presentes. Não mais se preocupariam com coisas estúpidas e banais que nada de bom lhes trazia. Comemorariam até que o corpo não pudesse mais sustentar-se e que os olhos não mais conseguissem manter-se abertos.

A estafa, no entanto, chegou antes do que todos esperavam. Um a um foram se acomodando pelos cantos e cômodos da casa, entregando-se ao mundo dos sonhos. Ele, tal qual um observador no centro de um panóptico, percebia o sorriso formado no rosto de cada um ali presente. Caminhou a passos curtos, desviando daqueles que haviam feito do chão suas camas, até encontrar seus pais. Estavam ambos sentados em um sofá, abraçados, presos a um profundo sonho. Ele acariciou os cabelos de ambos e sorriu.

Partiu enquanto todos dormiam.