sábado, 10 de abril de 2010

O caso do livro

Batem à porta.

– Entra – grita o delegado.

– Bom dia, seu delegado.

– Bom dia. O que é!?

– Seu delegado, tem um cara ali fora dizendo que veio se entregar.

– Quê que ele fez?

– Pois é, aí acho que é melhor o senhor mesmo ouvir. É uma história meio estranha. Na verdade, muito estranha.

– Muito estranha? Já vi de tudo nessa vida, Jairo – disse, dando uma gargalhada velhaca – Mas vá lá. Chama o infeliz.

– Sim, com licença.

Jairo sai e volta acompanhando o infeliz.

– Senta aí e conta a história pro delegado.

– Bom dia, doutor.

– Bom dia. Agora conta, que crime o senhor cometeu?

– Bom, doutor – relutou –, eu matei alguém.

– Bom, até aqui tudo bem.

– Tudo bem? – o homem se espantou.

– Sim. Quer dizer, não. Quer dizer, sim. Sim! Na verdade ouvi que era um caso fora do comum. Enfim, quem foi que o senhor matou?

– Eu matei – baixou a cabeça – eu matei meu livro.

O delegado olhou confuso para o investigador que lhe devolveu um olhar como dissesse: eu avisei.

– O senhor quis dizer seu filho?

– Não, não. Não tenho filhos. Não sou nem casado. Eu matei um livro.

– Livro? É o apelido de alguém?

– Não, doutor, um livro mesmo. Aqueles com capa, folhas, frases...Essas coisas.

O delegado recostou-se à cadeira e coçou o denso bigode.

– Diga-me, senhor, por acaso o senhor usa ou usou por esses dias algum tipo de droga ou entorpecente? Qualquer um...

– Não, doutor. Eu sempre fui limpo. Nem cerveja nunca botei uma gota que fosse na boca. Minha família tem um histórico ruim, sabe como é...

A partir da resposta do homem a sua frente, que parecia mesmo lúcido, apesar da bizarra conversa que vinham tendo de uns minutos pra cá, o delegado só pôde pensar em duas alternativas: ou o homem, ou ele e o investigador Jairo estavam loucos.

– Me explica melhor – resolveu pedir, por fim.

Nessa hora o investigador puxou uma cadeira e sentou, também estava curioso. Em trinta anos de vida e dez de profissão, nunca tinha ouvido caso parecido.

– Então, doutor, na verdade, eu tive que matar ele porque ele tava me deixando louco.

– Quem?

– O livro.

– Ah, sim. Prossiga.

– Pois bem, já fazia um tempo que ele vinha tendo umas atitudes estranhas.

– Ele quem?

– O livro! – o homem e o investigador disseram ao mesmo tempo. O delegado lançou um olhar de reprovação ao segundo, que baixou a cabeça, temeroso.

– Prossiga.

– Então, como eu ia dizendo, ele vinha tendo umas atitudes estranhas. Ele é o livro – enfatizou.

– Sim, sim! Que tipo de atitudes?

– Até me dói falar – abriu um botão da camisa. Estava bem arrumado para um assassino de livros – Primeiro, ele começou a fugir de mim, mas só como provocação, porque ele nunca ia muito longe. Eu deixava ele em cima da cama e ele aparecia na cozinha, dentro do microondas. Deixava ele no banheiro e, quando via, ele aparecia na gaveta das meias de lã. Era horrível!

O delegado agora coçava os ralos fios de cabelo, enquanto o investigador se aproximava mais para ouvir melhor.

– Depois, doutor, depois que preguei a capa e a contracapa na mesa pra que ele não fugisse mais, aí ele se rebelou: começou a virar as páginas sozinho, do nada. Eu abria na página trinta e cinco e quando ia ler, ele virava pra quarenta e um, ou voltava pra vinte e sete, ou qualquer outra coisa parecida. Era assim todas as vezes.

– Você pregou o livro na mesa?

– Sim.

– Na mesa de jantar?

– Sim. Bom, na verdade, era a de almoço também. De café da manhã não porque não tomo café da manhã.

– Que viagem!

– O que disse, Jairo?

– Nada, nada. – pigarreou - Desculpa, delegado.

– Posso continuar?

– Por favor – disse o careca.

– Eu não agüentava mais tanta rebeldia, então, toda vez que eu ia ler, eu botava algo pesado em cima dele: um prato com sanduíche, uma garrafa de refrigerante, uma panela, coisas assim.

– E ele? - a curiosidade do delegado aflorava.

– Ele deu um jeito.

– Filho-da-puta! – exclamou o investigador.

– Que jeito? – o delegado já havia se servido de café.

– Bom, aí ele começou a mudar os parágrafos de lugar. E fazia o mesmo com as frases, as palavras, a pontuação, os acentos...Era terrível, como podem ver.

– Terrível, sim – delegado e investigador concordaram.

– Aceita um cafezinho?

– Não, obrigado.

– Eu aceito! – era Jairo, sorridente.

– Pois então te serve, inútil – Voltou-se para o assassino. – Siga, meu senhor, siga.

– Aquilo era o fim. Por mais que amasse ele e quisesse ler, aquela situação era inadmissível. Aí comecei a tentar me livrar dele – Jairo levantou para se servir de café – Primeiro eu tentei afogamento. Derrubei um copo d’água nele e fingi que tinha sido sem querer. Mas não deu certo. O máximo que consegui foi borrar algumas palavras.

– Devia ter usado café. Mancha, olha só – Jairo mostrou a camisa manchada de café.

– Não! Café, não! Café é quente, não queria que ele sofresse.

– Sim, verdade. Pobre livro.

– Tá! Tá! E depois, o que aconteceu? – o delegado estava sedento por mais história.

– Bom, no dia seguinte ele já tava seco de novo, e com as páginas de cabeça pra baixo, só pra me provocar. Aí eu saí de mim. Comecei a arrancar as páginas enfurecidamente, mas não adiantou, só espalhei livro por toda casa. Fiquei mais brabo ainda. Juntei as páginas espalhadas, pus dentro duma caixa de sapato, peguei a mesa, levei tudo pra fora de casa, joguei álcool e pus fogo. Os doutores não sabem como era lindo aquelas cinzas voando e se desmanchando com o vento.

Um sorriso diabólico se formou no até então rosto singelo do homem franzino que relatava o caso. Os dois ouvintes estavam boquiabertos. O homem se recompôs.

– E é por isso que eu estou aqui agora: quero ser punido pelo meu crime.

O delegado e o investigador também voltavam a si. O primeiro ajeitou alguns papéis sobre a mesa, tomou o último gole de café até dizer:

– Bom, o caso é bastante interessante, mas não há crime nenhum, meu senhor.

– Não há mesmo – disse Jairo, já com uma nova mancha de café na camisa.

– O quê? Mas como não? Eu matei meu livro. Os doutores não ouviram? Eu matei meu livro. Quero ser punido, preciso ser punido.

– Mas não há crime, meu senhor – o delegado pôs-se de pé.

– Tem que ter. Eu sou um assassino, me prendam. Me prendam! – àquela altura, gritava.

– Jairo, tira esse cara daqui.

– Sim, senhor.

Quando Jairo segurou o homem pelo braço, este conseguiu arrancar-lhe o revólver da cintura, se livrou das mãos alheias e apontou para os dois homens-da-lei.

– Vocês têm que me prender! Senão, senão...Eu mato vocês.

– Mas já disse que não há crime! – o delegado seguia firme sua decisão.

– Delegado?

– Que foi, Jairo?

– Delegado, ele tá apontando uma arma pra nós.

– Sim, eu já percebi, Jairo.

– Mas delegado?

– Pelo amor de deus, o que foi, Jairo?

– Ele ameaçou nos matar. Isso não é crime?

O delegado raciocinou por um instante.

– Sim, tem razão, Jairo. Como você é esperto. – Jairo sorriu orgulhoso. O delegado se voltou para o homem – Meu senhor, o senhor acaba de cometer um crime.

– Sério? O doutor jura?

– Juro.

– Que bom! Então vão me prender?

– Sim. Jairo, prenda esse homem.

– Sim, senhor – e se jogou sobre o homem, tirando-lhe a arma da mão e algemando-o.

– Leva pra última cela.

– Sim, senhor. Vambora, vagabundo.

– Cada louco que me aparece...

Jairo levou o homem até a cela e atirou-lhe lá dentro. O assassino sentou-se no colchão, com as costas na parede e abriu o maior sorriso que já se viu no rosto de um presidiário.

3 comentários:

Daniela Desgraça Nicknich disse...

Diz que tu copiou de algum lugar. Caso contrário vou achar que tu leva mesmo jeito pra coisa. E muito.

Nícolas Poloni disse...

É verdade que nenhuma ideia é original. Mas fiz o meu melhor para criar esse enredo. =)

Joy Kwiat disse...

Eu acho que matar um livro é crime, e gravíssimo!!!kkk

Olha só, entrei aqui por acaso e não resisti a ler, resultado: estou encantada com os textos! Este então... UNBELIEVABLE!!!

JOY