quarta-feira, 5 de maio de 2010

O sono dos justos


Acordou e demorou alguns segundos para acostumar os olhos com o pouco de luz que atravessava a janela do quarto. No mesmo instante, percebeu que uma cabeça de cabelos longos repousava entre seu peito e seu braço esquerdo. Fixou os olhos e reconheceu-a. Suspirou. Afastou a cabeça do travesseiro e olhou em volta, procurando o relógio. Com dificuldade, alcançou o objeto sobre o criado-mudo e constatou o avançado da madrugada. Tornou a acomodar a cabeça no travesseiro e olhou com o canto dos olhos para a cabeça enfiada entre os cabelos negros e espessos de seu peito. Quase não compreendia como aquilo poderia ocorrer. Lembrou que, algumas horas atrás, aquela mesma cabeça fazia-o suspirar por estar, justamente, longe de seu peito, cuidando de sua genitália. A movimentos ritmados, com pequenas pausas para recuperar o fôlego e engolir o excesso de saliva, fazia-o suspirar e, por vezes, gemer em regozijo. Como podia aquela mesma cabeça, antes envolvida com sua genitália, acomodar-se agora em seu peito, tão perto do coração. Eram dois sentimentos que não se valiam, pensava. Chegou a causar-lhe repulsa. Seria digna essa cabeça de acomodar-se em lugar tão sagrado? Acostumou-se durante muito tempo a viver somente a primeira parte da experiência, que terminava com o gozo e o dinheiro sobre a mesa. Aquilo que ocorria agora era novidade, algo com o que precisava acostumar-se. Seria possível? Tinha certeza que Deus desaprovaria. Mas que bela hora para não acreditar no Divino. Teria uma bela desculpa para escorraçá-la dali, jogando-lhe dinheiro na cara. Pagaria mais que pagava às outras para remediar a situação patética e para sentir-se menos culpado. Deveria julgá-la como faria um representante da fé? Não. Não seria convincente o suficiente. Deveria acostumar-se. Sim. Deveria acostumar-se e tratar aquilo como se fosse o ato mais natural do mundo. Talvez até o fosse, mas ainda o incomodava. Teve vontade de cuspir. Chegou a trazer a saliva à boca, mas engoliu novamente por não haver onde dissipá-la. Sentiu o coração bater mais forte como se quisesse, com o impulso, arremessar aquela cabeça para longe dali, para longe de si. Não era correto. Não havia como mudar isso ou pensar em outra coisa. A cabeça sorria. Zombava dele e de seus pensamentos funestos, delirantes. Maldita cabeça. Como pôde? Uma cabeça desprovida de coração. Uma cabeça que lhe engoliu a porra e agora dorme o sono dos justos, acomodada em seu peito. O que fazer? O que fazer? Perdoá-la? Parece-lhe o mais correto. É homem o bastante para tal. Sim, é o que fará. Está decidido. Ao acordarem ambos pela manhã, dirá a ela: eu te perdoo. Ela entenderá, tem certeza, e aceitará o perdão. Mais, ela pedirá perdão a ele. Eu não deveria, dirá, desculpe-me. E então ele a perdoará, porque é homem e porque sabe o que é certo e o que é errado. E é certo perdoar um erro. Sim, é o que vai acontecer pela manhã. A luz do dia ajudará a esclarecer tudo, não há dúvida. Ajeita-se para dormir novamente. Fecha os olhos e tenta abstrair a cabeça mergulhada em seu peito. Balbucia quase ininteligível: Eu te perdoo, meu amor. Vai ficar tudo bem.


4 comentários:

binlucas disse...

texto foda, é sobre como não sucumbir ao amor e como ter medo de amar. "Como podia aquela mesma cabeça, antes envolvida com sua genitália, acomodar-se agora em seu peito, tão perto do coração.[...] Seria digna essa cabeça de acomodar-se em lugar tão sagrado?"
Genial

Bruno Oyarzabal disse...

Com efeito, Lucas. Mas mais que isso: é uma bela representação do terror dos relacionamentos pessoais hodiernos; terror esse que nos é atavismo das revoluções de costumes dos anos 60, que, na verdade, foram revoluções no imaginário social- daí nosso terror e a literatura poloniana.

Moisés Westphalen disse...

Novo mês, texto novo.

Moisés Westphalen disse...

Ah, eu gosto.