sábado, 28 de agosto de 2010

Busca vã


Quando acordou já passava do meio-dia. Tinha uma ideia fixa na cabeça e isso o entusiasmou. Levantou depressa e vestiu a primeira peça que havia por perto. Acabou pondo a mesma roupa do dia anterior. Não tomou banho, nem mesmo lavou o rosto, muito menos penteou o cabelo, simplesmente pegou no colo a loira de olhos verdes que estava deitada na cama, levou-a até a cozinha e a jogou no cesto de lixo. Na verdade, não lembrava ao certo se os olhos dela eram mesmo verdes ou se eram azuis. São duas cores bastante confundíveis e ele não tinha tempo de checar, nem mesmo importava mais. Estava deveras ansioso.

Foi até o frízer para avaliar o estoque. Havia ainda duas morenas de nádegas avantajadas, uma asiática e uma loira de seios fartos. Estava bem para a semana, mas não era aquilo que queria realmente. Ao sair de casa, quase esqueceu de trancar a porta.
Correu para chegar ao mercadinho da rua de baixo. O trajeto dava uns cinco minutos, tempo suficiente para fumar um cigarro, ainda mais em movimento. Mas, quando chegou ao estabelecimento, jogou o cigarro fora um pouco além da metade.
- Boa tarde, guri!
- Bom dia, seu Ciro.
- Ah, sinal de que ainda não almoçou, não é?
- Isso mesmo. Mas já to dando um jeito.
- E que que vai ser hoje, então?
- Alguma coisa nova?
- Ué, mas e o estoque que tu fez sexta atrás? Não vai dizer que já acabou.
- Não, seu Ciro, claro que não. É que...
- Ah, já sei, deu uma festinha no fim de semana e convidou os amigos. Acertei?
A teoria foi seguida de uma risada. Não se saberia dizer se maliciosa ou astuta ou ambas.
- Não, não. Como eu ia dizer, ainda tenho o suficiente para a semana. Mais até.
- Mas então...Não vai dizer que é aquela ideia de novo.
- Pois é. É isso mesmo. Infelizmente, é isso.
- Já te disse, guri, mais de vez, até: não se encontra mais dessas assim hoje em dia. Não fazem mais dessa linha. Dava muito prejuízo, muita reclamação de cliente. Tiraram do mercado.
- Eu sei, seu Ciro. Perdi a conta de quantas vezes o senhor já me disse isso. Mas não adianta, alguma coisa dentro de mim diz que é possível achar uma.
- É o teu coração, guri. Ele tá tentando achar um par pra ele, normal. Mas não dá mais, já disse.
- Não pode ser. Não deveria ser assim.
- Nem sempre o correto é o ideal. É assim que funciona.
- Parece que é sempre assim.
- Infelizmente.
Ambos baixaram a cabeça.
- Mas então, algo novo?
- Olha, do que posso te mostrar como novo, chegou ontem um carregamento importado com umas africanas e umas latinas de dar água na boca.
- Tá, mas só pra garantir: o senhor checou?
- Chequei, guri, como sempre faço. Nenhum sinal de coração.
- Certeza?
- Certeza. A maioria veio com o velho motorzinho com bomba no lugar. Outras tão vindo com aqueles protótipos que tão fazendo agora, que parecem mais com os verdadeiros e suportam até o congelamento. A qualidade da carne fica bem melhor, isso é verdade, mas coração, desse não encontrei nenhum.
- É, parece que tenho que me contentar.
- É o melhor pra ti, guri. Não tem mais o que fazer.
- Bom, me vê uma africana com protótipo então. Acho que uma das morenas que tenho lá em casa já é latina.
- Certo. Mais bunda ou mais peito?
- Vê um meio termo.
Seu Ciro foi até a câmara fria e voltou com uma africana nos braços. Entregou para o rapaz que a pôs sobre o ombro.
- Mais alguma coisa?
- Um maço de cigarro, por favor.
- O de sempre?
- O de sempre.
- Algumas coisas nunca mudam, não é?
A risada velhaca voltou à face de seu Ciro.
- É verdade. Põe na conta.
- Certo. Até mais, guri.
- Até! – disse com o som abafado pelo cigarro que acendia.

5 comentários:

Joy Kwiat disse...

Ká...ramba!

C. A. disse...

Nicolas, gosto mesmo dos teus textos, sobretudo, porque eles me surpreendem.
Abraços.

Bruno Oyarzabal disse...

Seu Ciro, me vê uma sem boca.

Moisés Westphalen disse...

Quase um ano!

Bruno Oyarzabal disse...

Seu Ciro, me vê uma sem buço.